forumdoc.bh 20 anos (ou Duas Décadas de Um Cinema Menor)

João Campos

Um festival que nasce como um projeto entre amigos – e assim continua – chega a 20 anos de existência. Os dias de forumdoc marcam momentos especiais para a cinefilia belo-horizontina. Durante o evento, tomamos conhecimento de uma variedade incrível de filmes, prova de que o cinema documentário e etnográfico continua forte e diversificado. Prova também de que existem cineastas que buscam, através de dispositivos e formas incrivelmente distintas, encontrar o que existe de belo e potente nas relações, nos interstícios, nas pessoas, animais e paisagens que contribuem para a nossa experiência num mundo cada vez mais urgente.

Com efeito, a urgência marcou os filmes que assistimos e sobre os quais refletimos durante os nove dias de forumdoc 20 anos. O cruzamento entre estética e política sempre esteve presente nas obras que compõem as diferentes mostras do festival, mas, nesse ano, creio que tal questão atingiu um ponto crítico. Seja no enfrentamento direto ou no fora-de-campo, fomos ao encontro de filmes que, na relação que estabelecem com os espectadores, animam certos engajamentos políticos com o mundo em que vivemos, sempre no plural.

Em 2015, quando fui bolsista do forumdoc pela UFMG, recebi um precioso presente da Filmes de Quintal, entregue pela também preciosa pessoa da Jupira: “Ver e poder: a inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário”, livro de Jean-Louis Comolli, que me ajuda a refletir sobre aspectos dessa edição do festival. O seguinte trecho é de um texto familiar à turma do forumdoc, chamado “Sob o risco do real”:

O projeto documentário se forja a cada passo, esbarrando em mil realidades que, na verdade, ele não pode nem negligenciar nem dominar. Nem recalque nem forclusão: enfrentamento. Cinema como práxis[1] (grifo meu).

É esse cinema que encontramos no forumdoc. Filmes que, ao invés de reiterar realidades sociais e convenções estéticas, abrem fendas, se constroem em processo, se reinventam, formam focos de rebelião e interação estética e política. São filmes “menores”, como escreveu Marília Rocha – inspirada no termo“literatura menor” de Deleuze e Guattari –, sobre os filmes-ensaio de Agnès Varda, Chris Marker e Jonas Mekas. Filmes que constroem sua mise-en-scène na subjetividade, nas lacunas, nos interstícios, contrastando, devido a um valor revolucionário, com o cinema estabelecido ou industrial. Filmes que alimentam uma transformação do nosso olhar, um deslocamento do lugar olhado e sentido das coisas. Segundo a cineasta:

Em lugar de reiterar a realidade definida pelo Estado e as grandes instituições cinematográficas, os filmes menores questionam as visões pré-fabricadas do mundo e nos oferecem novas possibilidades de ver, pensar e experimentar a realidade. Seu engajamento político, micro-político, subjetivo, coletivo, social e afetivo nos ajuda a criar um “tornar-se menor”.

É nesse terreno que os filmes assistidos se encontram: entre a experimentação estética e a ousadia temática e política, contribuindo para um momento de engajamento e reflexão.

Foram muitos os destaques do festival, de filmes a mostras e – por que não? – atitudes e posturas dos organizadores[2]. Comecemos pelo emblema adotado pela equipe, o triângulo rosa, ou “rosa winkel”[3], distribuído ao público na abertura do evento. Essa tomada de posição, em defesa das minorias sexuais e de gênero, se relaciona claramente à proposta desse ano do ciclo de mostras/seminários“Cinema e alteridades”, projeto iniciado em 2011. O tema desse ano foi “Queer e a câmera”, e contou com filmes e debates vibrantes, contemporâneos ou não. Gostaria de destacar duas obras contemporâneas: Los Leones (2016) e Ingrid (2016), de André Lage e Maick Hannder, respectivamente.

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Tivemos, ainda, a satisfação de presenciar uma belíssima e emocionante homenagem ao cineasta Aloysio Raulino, no lançamento da Coleção Aloysio Raulino, que contou com sessão de dois filmes do cineasta: Jardim Nova Bahia (1971) e Tarumã (2015).

Martírio (2016), de Vincent Carelli em co-direção com Ernesto de Carvalho e Tita; Na Missão, Com Kadu, de Aiano Bemfica, Kadu Freitas e Pedro Maia de Brito; A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha; A Fazenda de Vacas (2016), de Mazraet Al Abkaar; e Um Outro Ano (2016), de Shengze Zhu, são, segundo a equipe da Rocinante[4] presente nessa cobertura, os maiores destaques do festival. Aguardamos, assim, o próximo ano do festival, sabendo que, ao assistir e vivenciar os filmes dessa edição, algo mudou em nosso âmago. Voltemos, pois, nossos olhares para esses filmes menores, ousados, transformadores, afetivos e potentes. Resta-nos parabenizar o forumdoc.bh, por seus 20 anos de existência, resistência e insistência num cinema experimental, revolucionário e subjetivo.

Aloysio Raulino, presente!

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Notas:

[1]Trecho de Sob o risco do real, de Jean-Louis Comolli. In: Ver e poder: a inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Ed. UFMG, p. 175.

[2]Devo salientar que a lista apresentada aqui é bastante pessoal e está longe de compreender todo o festival.

[3]O “rosa winkel” foi um símbolo utilizado pelos nazistas para marcar os homossexuais nos campos de concentração durante a II Guerra Mundial.

[4]Equipe composta por João Campos e Bruno Greco.