MOSTRAS PANORAMA E PRAÇA – Uma paisagem plural

Douglas König de Oliveira

Ao começar a assistir os curtas-metragens da mostra Panorama para esta cobertura, descobri um conjunto de filmes relativos à mostra Praça, que não seriam objetos da minha análise, mas que me despertaram o interesse em alguns títulos. A nomenclatura das duas mostras e sua descrição pareceram querer distinguir produções com um apelo mais direto, uma comunicação mais fácil com o público, de outra com produções mais densas e elaboradas, dentro do espirito, digamos “festivalesco” de competições entre obras. Mas isso não fica perfeitamente delimitado ao analisarmos o conjunto de filmes. A seleção das duas mostras é bem diversificada, em temas, estilos e estados de origem. Os curtas vão desde trabalhos de conclusão de curso de Artes Visuais e Cinema até filmes selecionados em festivais prestigiados como Cannes e Rotterdam, englobando tanto produções vencedoras de editais e concursos municipais e estaduais, quanto independentes. Para além do escopo inicial do texto, resolvi propor um dialogo entre estas produções denominadas como “populares” e as que representariam obras mais “elevadas” dentro de uma tradição cinematográfica. A proposta também serve como crítica a tal divisão, que, ao final, não teve um sentido claro, pois muitos filmes da mostra Praça teriam a elaboração e a qualidade para a mostra competitiva, enquanto alguns da mostra Panorama acabam se tornando itens de certo vício paradoxal da “originalidade da forma consagrada”.

Alguns filmes das mostras se destacam pela coesão de proposta e realização, sobretudo os dramas ficcionais. Os curtas manauaras O Barco e o Rio, de Bernardo Ale Abinader, Enterrado no Quintal, de Diego Bauer, e Seiva Bruta, de Gustavo Milan, se destacam pela força de suas estórias e pela capacidade de sintetizar, em cerca de um quarto de hora, conflitos entre os personagens que parecem preceder muito o ponto onde os encontramos no filme, e continuar a se desdobrar em possibilidades latentes, mesmo encerrado o enredo. As incompatibilidades das irmãs que mantêm um serviço de barcos em O Barco e o Rio são bem explícitas, mas promovem uma sutil transformação de uma das personagens, ilustrada de forma visualmente muito interessante, com cores e composições de grande beleza. Enterrado no Quintal já mostra uma Manaus urbana, de trânsito caótico e personagens marginais, numa estória clássica de vingança, com uma crueza das imagens que acompanha perfeitamente o espirito conturbado das personagens (a atriz amazonense Isabela Catão protagoniza ambos os curtas). Seiva Bruta também se destaca pelas ótimas interpretações, retratando o sofrimento de uma imigrante venezuelana que tem sua árdua jornada para chegar ao Brasil em busca de oportunidades agravada por um acontecimento inesperado. O desfecho já reverbera outra estória, e mantém intacta a potência do devir, de uma continuidade do fluxo de mudanças na vida da protagonista.

Os curtas Menarca, de Lillah Halla, Ela Que Mora no Andar de Cima, de Amarildo Martins e Três Graças, de Luana Laux, também apostam em enredos bastante fortes e definidos. Menarca toma emprestados elementos do cinema fantástico para tratar das cruéis descobertas de uma menina sobre o Mundo dos Homens, e como sobreviver a ele. O filme não observa, necessariamente, o universo masculino, mas a dinâmica adulta e os afetos nem sempre altruístas que se confundem com o puro e, por vezes, vil desejo. Uma ótima ambientação e uma direção dinâmica equilibram toda a estranheza da premissa, tornando o filme muito atraente, mesmo sendo ele bastante elusivo. Ela Que Mora no Andar de Cima utiliza o humor e uma mise-en-scène bastante charmosa e estilizada, ainda que por vezes grotesca, para contar os jogos de desejo entre duas vizinhas, enquanto testam novas receitas de doces em um dos apartamentos. O curta utiliza trechos oníricos para representar o estado interior da personagem apaixonada por sua esfuziante companheira de prédio, mas que, na verdade, apenas tem valor por ser alguém que prova sem reservas as desastradas receitas da vizinha. O curta Três Graças também relaciona o destino de três personagens femininas, com atuações intensas e uma direção também vigorosa. Com sequências elaboradas, tanto nas composições quanto na iluminação, o filme varia o estilo das cenas, desde as mais fantasmagóricas, como uma procissão noturna de mulheres em volta de uma fogueira rendendo preces a Virgem Maria, até as belas tomadas de dança de uma das personagens. Intercaladas as rotinas amorosas malsucedidas das três mulheres, observa-se uma estrutura próxima de Gritos e Sussurros (1972), de Ingmar Bergman, tanto na evolução das tensões durante a trama, quanto no trecho final de caráter idílico.

Outras ficções como Primeiro Carnaval, de Alan Medina, 5 fitas, de Heraldo de Deus e Vilma Martins, Você Tem Olhos Tristes, de Diogo Leite, Won’t You Come Out to Play?, de Julia Katharine, e Fora de Época, de Drica Czech e Laís Catalano Aranha, apresentam contrastes bem notáveis entre seus trechos iniciais e os momentos em que as propostas dos filmes são expostas, de forma geralmente didática, tornado o sentido bastante fechado e óbvio, sem ambiguidades. São filmes mais diretos, e que por vezes trazem uma clara bandeira ideológica, tornando a abordagem, provavelmente, mais adequada, mas prejudicando, de certa maneira, o conjunto de impressões que uma obra mais aberta pode proporcionar ao expectador. As características variam entre a singeleza de Primeiro Carnaval e 5 Fitas, e a contundência de Você Tem os Olhos Tristes e Fora de Época, passando pelo pesado e dilacerante drama de Won’t You Come Out to Play?, único filme que, curiosamente, registra nos créditos a situação de produção durante a pandemia, com gravações isoladas e feitas pelos próprios atores.

Os curtas Casa com Parede, de Dênia Cruz, Quarta: Dia de Jogo, de Clara Henriques e Luiza França, Vagalumes, de Léo Bittencourt, Minha Bateria está Fraca e Está Ficando Tarde, de Rubiane Maia e Tom Nobrega, Opy’i Regua, de Júlia Gimenes e Sérgio Guidoux, Milton Freire, Um Grito Além da História, de Victor Abreu, Caminhos  Encobertos, de Beatriz Macruz e Maria Clara Guiral, representantes de ambas as mostras, procuram tatear o fundamento de suas propostas  nas imagens, mas, às vezes, não alcançam um momento que sirva de âncora dramática, importante mesmo no documentário, para extrair da realidade uma construção fílmica relevante. Existe, em tais filmes, a importância inegável da documentação cultural, social, mesmo biográfica. Mas outros documentários da mostra parecem ter conseguido melhor alcançar esta equivalência entre a realidade documentada e a construção de um foco de atração, que pode transmitir de forma mais eficiente as intenções com o objeto de interesse dos realizadores.

Em Pega-se Facção, Thaís Braga revela uma realidade árida e cruel nas extremidades mais frágeis do mercado de trabalho. Abrindo com o som intermitente das máquinas de costura, retrata as preocupações de três gerações de uma família que trabalham na produção de roupas. A obra demostra a sincera melancolia de um ambiente alienado, com poucas perspectivas de um futuro melhor para si e para quem virá a sucedê-las, no caso, os filhos. O tempo alongado de algumas tomadas repercute na noção da condição estática dessas existências, no tempo de espera, na frágil esperança que o ciclo se quebre para a chegada de algo melhor. Sem dúvida, um dos trabalhos mais marcantes da mostra, Pega-se Facção alcança um equilíbrio da forma em beneficio do drama. Curiosamente, participou apenas da mostra não competitiva Praça.

O vigoroso Adelaide, Aqui Não Há Segunda Vez para o Erro, de Anna Zêpa, utiliza uma interessante estrutura em primeira pessoa para realizar um resgate da literatura de Adelaide Carraro, artista marginalizada por seus escritos de alto teor erótico entre os anos 60 e 70, articuladora de claras posições políticas que afrontavam a moral conservadora de sua época. De Dora, por Sara, de Sara Antunes, também rememora a trajetória de uma figura politica, Maria Auxiliadora Lara Barcelos, com as escolhas estéticas da diretora e atriz principal intimamente relacionadas à sua relação familiar com a personagem retratada, atingindo uma grande intensidade de convergência entre o registro fílmico atual e o passado histórico.

Em Rebu, Mayara Santana realiza uma interessante mistura da linguagem das redes sociais com os dilemas da aceitação de sua sexualidade, num documentário bastante vivo e efusivo, mesmo tratando de questões difíceis. Uma abordagem bem próxima de À Beira do Planeta Mainha Soprou a Gente, das diretoras Bruna Barros e Bruna Castro, que discute as possibilidades de um relacionamento homoafetivo, valendo-se de linguagem bastante ágil e poética. Estes dois filmes, além do anteriormente citado Fora de Época, de Drica Czech e Laís Catalano Aranha, demostram que os curtas-metragens são plataformas eficientes para fomentar discussões sobre gênero, em produções que refletem tais inquietações, principalmente por parte de jovens, sem se tornarem, tão somente, panfletos audiovisuais.

Alguns documentários exibidos reportam ambientes de produção musical, como Ainda Te Amo Demais, de Flávia Correia, e Noite de Seresta, de Sávio Fernandes e Muniz Filho, ambos da mostra Praça. Eles retratam muito bem uma teia de pessoas que estabelece um ambiente onde a expressão musical acontece – desde uma marcante cena embalada a reggae, em Ainda Te Amo Demais, até um retrato da boemia cearense e da paixão por cantar de uma personagem bastante pitoresca, em Noite de Seresta. O curta Rádio Capital Alvorada, de Rafael Stadniki, representa também uma cena musical, adaptando como ficção a história real de uma prestigiada rádio de Brasília em seu último dia de transmissão. Mas o filme esbarra num certo artificialismo que tira grande parte da graça da situação do enredo.

Os casos mais problemáticos se encontraram num conjunto de curtas da mostra Panorama, onde se ressaltaram algumas caraterísticas, digamos, vanguardistas. Na minha apreciação, foram as obras em que os recursos visuais nem sempre convergiram com as propostas, pois as sínteses do que se vê e do que se apreende foram, de alguma forma, prejudicadas. São eles Levantado do Chão, de Melissa Dullius e Gustavo Jahn, Ilha do Sol, de Lucas Parente e Rodrigo Lima e Walter Reis, Animais na Pista, de Otto Cabral, O Jardim Fantástico, Fábio Baldo e Tico Dias, A Pontualidade dos Tubarões, de Raysa Prado, e Você Já Tentou Olhar Nos Meus Olhos?, de Tiago Felipe, Choveu Há Pouco Na Montanha Deserta, de Rei Souza, filmes bastante cifrados, com o desenvolvimento truncado por escolhas formais mais obscuras, de difícil acesso ao público em geral, e mesmo a uma visão critica. Existem recursos utilizados de forma interessante, como o longo plano-sequência de Animais na Pista, os inusitados ângulos de câmera de Ilha do Sol, ou o tratamento visual à moda do surrealismo francês da década de 20 em Levantando do Chão. Destacaria também a rarefação do drama, tão pertinente no cinema contemporâneo (principalmente, o oriental), em A Pontualidade dos Tubarões e Choveu Há Pouco Na Montanha Deserta, os ecos metafísicos, que remetem a Apichatpong Weerasethakul, em Jardim Fantástico, e a pretensão/despretensão experimental do breve Você Já Tentou Olhar Nos Meus Olhos.

São filmes nos quais faltam subsídios a um expectador médio, que não tenha a noção de valoração dos próprios recursos da linguagem cinematográfica (se é que esses recursos isolados possam ter valor sem ser veículos para as concepções criativas concretas). As obras propõem discussões que ultrapassam o relato ligeiro, e dificilmente vão ser atração fora de meio acadêmico ou crítico. Mas, certamente, se tratam de filmes com vocação para provocar a audiência, por estranhamento ou mesmo indiferença, atingindo tanto aqueles para quem jump cuts godardianos são expedientes habituais, quanto aqueles que os consideram um prato frio desde meados dos anos 60.

Por fim, alguns curtas da mostra têm um lugar bem estabelecido de expressão, cativando por sua originalidade e eficiência narrativa. O terno e doce Vida Dentro de Um Melão, de Helena Frade, é muito bem-sucedido em entremear um teatro de bonecos com lembranças familiares, numa linguagem que mistura o lúdico e o existencial, exaltando o carinho com os personagens reais retratados pelos seus simulacros de tecido. Magnética, de Marco Arruda, uma animação alucinada, utiliza inúmeras técnicas, e referências, desde a estética cyberpunk até o Cassino do Chacrinha e filmes como Terra em Transe e Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Trata-se de uma experiência sensorial, com signos jogados num liquidificador que explode em cores e formas inusitadas. Babelon, de Leon Barbero, é um curta com um enredo clássico do gênero sci-fi, onde paranoias no estilo do escritor Philip K. Dick conduzem o protagonista a questionar o estatuto de sua realidade. O filme apresenta um uso criativo dos elementos de cena, dos sons e apresenta vários elementos icônicos e enigmáticos. Vitória, de Ricardo Alves Jr, tem um claro conteúdo social, retratando uma organização de greve em uma fábrica de tecidos. O estopim para o levante é a tomada de consciência das empregadas sobre as desigualdades nas relações do seu ambiente trabalho. O curta tem um ritmo de composição muito limpo e austero, assim como o desenvolvimento da personagem principal, que passa de um sutil desconforto para a indignação e a ação conjunta para requerer diretos justos, num desfecho aberto do enredo, mas com todos os elementos dramáticos para que o expectador o complete à partir das sugestões do filme. A utilização do barulho do maquinário da fábrica também é muito bem empregada como moldura sonora e elemento de inquietação para o expectador.

Pode-se notar nessas impressões conjuntas das duas mostras que tanto a qualidade quanto o estilo permitiriam que muitos filmes da Praça participassem da mostra principal competitiva, ao invés da exibição pública apenas. Assim como muitos filmes da mostra Panorama apresentam um teor apenas de curiosidade, quase anedótico. Talvez servissem melhor ao estímulo mais direto de uma sessão ao ar livre, sem o peso da avaliação “oficial”. Não sei se existiu da parte da curadoria uma intenção de dividir as obras ditas importantes das mais prosaicas, mas não me pareceu que esse critério tenha feito justiça a vários filmes que tive o prazer, não só sensorial, mas crítico, de apreciar na mostra dita “menor”.