1917 (2019), de Sam Mendes

Sequências do mesmo tom

Roberto Cotta

Reza a lenda que João Gilberto se deu conta que o tom de voz baixo poderia ajudá-lo na modulação do ritmo de cada canção, desde que as batidas de seu violão apresentassem constância. Isso lhe permitia um controle do tempo, conduzido como bem entendesse. O resto a gente sabe que é história. E história não se admite, temos apenas que lidar com seus rastros. 

Pé frio que sou, quando quero que algo não aconteça, normalmente digo que ocorrerá. Desse jeito sou traído pela aposta, mas não me sinto totalmente derrotado. Pois bem, então admito que 1917 (Sam Mendes, 2019) fará parte da história. Seus espantosos aparatos técnicos emulam a realidade como nenhuma outra ficção, o que cai como uma luva na indústria cinematográfica atual. É verdade que não é o primeiro a fazer do plano-sequência uma publicização do realismo. Porém, será visto como farol quando o cinema comercial incorporar de vez a experiência dos videogames. Mera questão de tempo. Em breve, o parque de diversões dos blockbusters se tornará um fliperama hi-tech e 1917 terá sido seu prodígio mais ilustre.

Como filme, podemos dizer que é o jogo mais realista que existiu. De Southland Tales (2006) aos novos Jumanji (2018 e 2019), o flerte com a linguagem dos games tem se intensificado radicalmente. E não é novidade que o ritmo das ações e a fugacidade dos planos façam do espectador uma espécie de avatar. Mas sempre houve uma barreira impenetrável: a montagem. O corte impede a passagem fluida a esse outro universo, evitando o transe como forma absoluta de imersão. A cada fratura, o avatar se desfaz e a distância da tela surge como um ativador de consciência.

1917 dá um passo além. Sua incessante busca realista e a quase ausência de cortes permite ao espectador uma condição de testemunha ocular permanente. Na companhia dos personagens, partilhamos de uma jornada repleta de fases e desafios a serem superados. Desse modo, até fica difícil notarmos a previsibilidade dos acontecimentos, pois somos impulsionados à constante iminência do perigo, traduzido em armadilhas e alemães, alemães e armadilhas.  

Sam Mendes aproveita a trajetória dos protagonistas para decretar sua perspectiva estética. Para ele, a guerra proporciona fascinação em estágio máximo, até nos mínimos detalhes. A morte é filmada como condição heroica, os corpos dilacerados são virtuosos, a nódoa espalhada pelas trincheiras é magnífica e a trilha orquestrada imparável arremata de vez o mergulho numa jornada épica. Mas também passamos do macro ao micro num piscar de olhos. Um pequeno roedor gera uma grande explosão, uma faquinha mequetrefe promove uma tragédia e um pedaço de papel carcomido pela umidade suspende uma batalha.      

Toda essa minuciosa plasticidade se arvora num tecnicismo excessivo, cuja finalidade é nos fazer observar cada detalhe da missão. Em contrapartida, surge uma contradição. O filme deseja que sintamos os impactos da guerra, entretanto não podemos suportar sua dureza, já que não somos suficientemente preparados para isso. Portanto, não é permitida a sensação de encararmos a barbárie bélica e sua consequente estupidez. O fascínio pelo real segue conduzido por trás de uma viseira. Resta somente a possibilidade de imersão num protótipo de game de combate, com bifurcações maquinadas e uma matemática limitada de ações.  

A todo instante, impressiona como os recursos técnicos são operados e logo nos espantamos: “caramba, como aquilo foi feito?!”, “uau, não é possível ter sido filmado sem cortes!”. Quase sem cortes, aliás. 1917 é demarcado por planos que duram entre cinco e oito minutos. Contudo, as emendas entre eles são disfarçadas e ajustadas na pós-produção, causando a ilusão de que tudo foi filmado em tomada única. Ainda assim, olhos mais atentos percebem um corte causal e menos sutil que propõe uma elipse que transforma o dia em noite.  

Mas seria um problema a aproximação entre as linguagens do cinema e do videogame? Não necessariamente. Inclusive, o esforço dos jogos tem sido até maior em tornar essa mistura mais propositiva. God of War (2005-2018), por exemplo, está aí para comprovar um realismo gráfico bastante similar ao dos filmes americanos de fantasia, com nuances dramatúrgicas valorizadas por uma consistência estética. Além disso, tenho que confessar que não sou daqueles carolas que acham que o som acabou com o cinema, que o vídeo acabou com o cinema, que o gif acabou com o cinema, que o cinema acabou com o cinema.  

Nessa falta de xaxado, é preciso dizer que o grande problema de 1917 é seu tom monocórdico, e disso derivam outras complicações. Sendo Sam Mendes um artesão que não possui o domínio rítmico de um João Gilberto (seria exigir demais), o filme esmorece numa sistemática repetitiva que compreende a guerra como algo insistentemente vibrante. A ideia é lançar um emaranhado de situações cheias de obstáculos, que de tanta intensidade acabam parecendo iguais. Não há cadência, e tal descompasso contrasta com a noção de continuidade das ações, soando incompatível com o próprio dispositivo realista criado. É uma guerra de expressões boquiabertas, mas sem dor, sem respiro, sem o questionamento de sua própria existência. 

Começamos nas trincheiras inglesas, partimos sem fôlego ao abrigo alemão, nos deparamos com uma casa abandonada, seguimos dentro de uma caminhonete abarrotada de gente, levamos um tiro, acordamos maravilhados com as chamas em meio aos escombros, encontramos um bunker, caímos num rio, acordamos ilesos, avistamos outros soldados cegos, rumamos ao front pra evitar a batalha e nos redimimos. Ou seja, aguentamos uma sucessão de fatos que não conseguem estabelecer qualquer sensação de selvageria e que apenas contribuem para preservar a etiqueta surrada dos filmes de redenção.

Acima de tudo, estamos diante da glorificação da técnica. Os personagens caminham com dificuldade por um terreno enlameado, sujando-se quase por completo. Ao contrário disso, a câmera os segue sem trepidações, oferecendo um contraponto óbvio ao percurso. Tal como nós, ela será uma parceira isenta de percalços. Estará o tempo todo presente, mas não poderá se sujar. Afinal, é preciso pegar o melhor ângulo, a melhor reação, o melhor tiro, a melhor queda. Valoriza-se o melhor de tudo. Não há espaço para deslizes técnicos.  

Em outro momento, a morte de um personagem é seguida pela imediata palidez de seu rosto. Como não é possível a intervenção do corte, o recurso se materializa através da pós-produção. O intuito é mostrar que o realismo pode ser fabricado a qualquer custo. E a sensação de consumi-lo é mais interessante que sua própria condição. No fim das contas, é o que fica pra história. Forja-se uma realidade para edificar o fascínio. Fascina-se pelo espetáculo para sedimentar o heroísmo.  

Finalmente, deixa-se o legado de que a guerra não foi algo tão intragável assim. Por sinal, o enfoque na Primeira Guerra Mundial sequer importa, embora as cartelas finais informem que o roteiro foi baseado em histórias contadas pelo avô de Mendes, ex-combatente no conflito. A guerra representada é um reles adorno. Os alemães, adversários inescrupulosos, parecem ter saído de uma caricatura nazista da Segunda Guerra, como observamos no embate entre o traiçoeiro piloto germânico e o generoso oficial britânico, naquele que talvez seja o momento mais esquemático do filme. O que motiva 1917 é nada mais que as sucessivas situações aventurescas geradas, empanturradas de seus diversos deslumbres.