As comunidades e os rastros da vida comum na 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Roberto Cotta

“Que não morram meu pai, minha mãe, meu irmão e eu”. Era com essas preces egoístas que encerrava minhas orações na infância, tempo em que era católico praticante. Seria mais sincero dizer: “foda-se o resto, o que importa é a vida dos meus”. Os anos se passaram e contrariaram a súplica, trazendo o falecimento do meu pai. Apesar dos percalços, minha mãe, meu irmão e eu continuamos vivos e vimos a família crescer.

Tudo estava preparado para a realização presencial da Mostra de Cinema de Tiradentes 2022, mesmo em meio ao aumento progressivo de casos de Covid-19 e às chuvas torrenciais que atingiram Minas Gerais no começo do ano. Mas ainda bem que o senso coletivo prevaleceu. As atividades no local foram canceladas e o festival foi promovido de forma online entre 21 e 29 de janeiro. Afinal, o cinema não pode estar acima da vida. 

Estimulante como sempre, o evento apresentou um conjunto diverso de filmes e mostras. A curadoria manteve o espaço aberto ao cinema de invenção, o que naturaliza a variação de dramaturgias e estilos, assim como de qualidade. Ao contrário de anos anteriores, tive contato com menos obras do que gostaria. Me dediquei aos filmes da Aurora e da Foco, competitivas principais, por isso vi muito pouco das seções paralelas, que costumam trazer pérolas escondidas em sua programação.

O festival prestou homenagem ao cineasta Adirley Queirós com a exibição de seus filmes. A inventividade estética e a agudeza política de sua obra são dos acontecimentos mais pulsantes do cinema brasileiro das últimas décadas. Foi possível rever seus premiados longas A Cidade É uma Só? (2011), Branco Sai, Preto Fica (2014) e Era uma Vez em Brasília (2017), bem como revisitar obras menos conhecidas como o curta Dias de Greve (2009) e o média Fora de Campo (2010), codirigido por Thiago B. Mendonça.

Celebrando os 25 anos do evento, foi realizada uma mostra retrospectiva composta por longas-metragens de diversas edições. É claro que alguns filmes consolidados estiveram em destaque, tais como Os Dias com Ele (2013), de Maria Clara Escobar, A Vizinhança do Tigre (2014), de Affonso Uchoa, e Baronesa (2017), de Juliana Antunes. Mas interessante mesmo foi redescobrir filmes pouco repercutidos. Nesse sentido, a vitrine foi essencial ao delirante O Quadrado de Joana (2006), de Tiago Mata Machado, ao iconoclasta Subybaya (2017), de Leo Pyrata, e ao escrachado Aliança (2014), de Gabriel Martins, Leonardo Amaral e João Toledo.

Como de costume, o festival promoveu uma mostra baseada numa temática específica. A deste ano se chamou Cinema em Transição e discutiu as transformações estéticas e políticas do país, seja diante da pandemia, seja face à extrema-direita que atualmente nos governa. Tal programa acabou sendo o melhor de todo o evento, sobretudo nas seleção de curtas, onde saltaram aos olhos Qual É a Grandeza? (2021), de Marcus Curvelo, Rua Ataléia (2021), de André Novais Oliveira, Yãy Tu Nunãhã Payexop – Encontro de Pajés (2021), de Sueli Maxakali, e Mutirão: O Filme (2022), de Lincoln Péricles. O primeiro propõe um jogo de cena que questiona os absurdos de fazer cinema no Brasil. O segundo mostra uma centelha de memórias em meio à penumbra, a partir de uma família sem energia elétrica em casa. O terceiro documenta a busca de um novo lar para 100 famílias da tribo Tikmῦ’ῦn-Maxakali. E o último traz o olhar de uma criança sobre o trabalho coletivo desempenhado por moradores do próprio bairro na construção de casas e associações ao longo de décadas. Cada um à sua maneira, todos apresentam consistência estética capaz de tonificar seus temas.

Da Olhos Livres assisti apenas ao longa premiado pelo Júri Jovem: Os Primeiros Soldados (2021), de Rodrigo de Oliveira. O filme trata da chegada devastadora do HIV ao Brasil no início dos anos 1980. Seu protagonista é Suzano (Johnny Massaro), um biólogo que vê o corpo afetado pelo vírus e tenta enfrentá-lo do jeito que pode. Rose (Renata Carvalho) e Humberto (Vitor Camilo) embarcam juntos nessa luta, através da qual o afeto e a ciência são as únicas formas possíveis de proteção. Personagens marginalizados pela sociedade, eles têm apenas uns aos outros para formar um exército simbólico que busca sobreviver. O ritmo da obra se assemelha à derrocada vivida pelos enfermos. Pouco a pouco, cada cena ressalta a melancolia que se espalha pelo corpo, à medida que se percebe a inevitabilidade da morte. 

Embora ambientado em outra época, é curioso como Os Primeiros Soldados consegue traçar paralelos com o momento atual. Passados 40 anos do início de uma pandemia sem fim, agora somos assolados por outra igualmente letal. Mesmo com esse hiato, a comunidade LGBTQIA+ que protagoniza o filme permanece à margem, encarando os preconceitos cotidianos e o desprezo das autoridades políticas.

As comunidades dissidentes na mostra Foco

Considerando esse aspecto, chega a ser natural que parte dos filmes da Foco, competitiva de curtas, trouxessem personagens gays, lésbicas, transexuais e não binários construindo uma vida em comunidade. Até certa medida, essa seria uma forma de sobrevivência e amparo. Em maior ou menor grau, isto é possível ser visto em Bege Euforia (2021), de Anália Alencar, Iceberg (2022), de Will Domingos, Na Estrada Sem Fim Há Lampejos de Esplendor (2021), de Liv Costa e Sunny Maia, e Uma Paciência Selvagem me Trouxe até Aqui (2021), de Érica Sarmet.

Bege Euforia apresenta um conjunto de mulheres que vivem numa espécie de refúgio espiritual e se conectam com o sagrado feminino mediante a partilha entre elas e o contato com elementos da natureza (terra, fogo, água e ar). Sua fotografia opaca expressa o mistério em torno do grupo, criando um clima quase onírico. No entanto, como há apenas um fiapo de trama, um conceito fugidio e bastante contenção nas falas e ações, torna-se difícil mergulhar no universo das personagens para além de sua força visual, o que complica a fruição e impede que todas as camadas propiciem a sensorialidade que desejam.

Iceberg gira em torno de uma cooperativa de costura formada por pessoas LGBTQIA+ que por lá moram e trabalham. A falta d’água os assombra enquanto a pandemia segue seu curso feroz. Apesar da premissa fascinante, o filme praticamente não a desenvolve. O que vemos é a reiteração desse pressuposto e o surgimento de situações isoladas que provocam impacto somente pelos efeitos cênicos. Mas a execução de cada elemento destoa do todo, gerando um curta bastante oscilante, que não consegue potencializar a qualidade de seus aspectos formais. De toda maneira, como tem sido óbvio mostrar uma comunidade como campo de proteção, aqui o refúgio se torna tormenta. Esse traço inesperado traz frescor e permite que a obra se sustente, embora haja muito desequilíbrio em sua condução.      

Na Estrada Sem Fim Há Lampejos de Esplendor e Uma Paciência Selvagem me Trouxe até Aqui têm muito mais em comum do que seus títulos gigantescos difíceis de decorar. Ambos são protagonizados por personagens à deriva que transitam pela noite néon em suas motocicletas aceleradas, ao mesmo tempo em que redescobrem seus próprios sentimentos. Além disso, tais figuras estabelecem um éthos LGBTQIA+ no qual a convivência impulsiona questionamentos e decisões sobre o prazer e a existência.

Na Estrada Sem Fim… desvela um olhar inebriado no qual a câmera passeia pelos rostos sem ponto de partida ou chegada, assim como o rumo das personagens. Sem chão e sem destino, o Sol das protagonistas é a luz do poste de uma rodovia qualquer. Já Uma Paciência Selvagem… promove o encontro de gerações distintas, motivado pela primeira ida de Vange (Zélia Duncan) a uma boate lésbica. Ao encontrar mulheres mais jovens, ela reconecta-se com o passado e mira perspectivas ao seu futuro. Com traços experimentais atravessando seus fios narrativos, os dois curtas reúnem atributos estéticos diversos, que vão desde a textura videográfica ruidosa da década passada (Na Estrada Sem Fim…) às colagens de jornal, depoimentos documentais e chroma-key (Uma Paciência Selvagem…). Contudo, a concisão temporal e a estrutura nebulosa do primeiro me empolgam mais que variações de encenação do segundo, que começa bem mas me perde quando se inclina mais ao tom panfletário que simbólico. Embora, claro, Uma Paciência Selvagem… tenha sido o grande vencedor da Foco, além de obter o prêmio do Canal Brasil.

Em filmes como Madrugada (2022), de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, e Prata (2021), de Lucas Melo, a comunidade apresentada é essencialmente masculina. No primeiro, um grupo de trabalhadores informais catam restos de soja deixados por um trem de carga noturno. Antes que o dia amanheça, a insalubridade é tanta que eles não sabem se permanecerão vivos. Já o segundo mostra adolescentes da Baixada Fluminense em tempos de diversão e ócio, enquanto esperam a chegada de um futuro incerto. Nas duas obras, o esmero da composição estética se destaca. Madrugada cria um clima de luto a partir de planos que revelam a grandiosidade da noite e a instabilidade da vida precária dos personagens. Prata mistura cenas do cotidiano e através delas tenta estimular uma aura fantástica, na qual o sobrenatural pode emergir a qualquer momento. Em suma, foram dois dos curtas que mais me instigaram na mostra, apesar de ser suspeito para falar sobre Madrugada, já que acompanhei seu processo de realização como orientador.

Por fim, Prosopopeia (2022), de Andreia Pires, é o último dos curtas a abordar um sentido de comunidade. O musical multicolorido em forma de cordel acompanha as desventuras de uma trupe teatral em seu ateliê, depois segue em direção às ruas. Denota um estilo de encenação antinatural, cujos gestos e empostações de voz nos deixam embarcar em seu caráter fabular. Entretanto, a recorrência aos primeiros planos (apostando nos jogos de interpretação dos personagens) e a limitação de sua espacialidade impedem que o desbunde tome conta de seu estilo e nos leve ao torpor imaginado. 

E nem só de comunidade vive a Foco. Os outros filmes selecionados trazem aspectos variados, comprovando a diversidade estilística proposta pelo programa. Em Nascimento de Helena (2021), de Rodrigo Almeida, um rapaz gay sonha em destruir uma família tradicional. O relato é narrado em off enquanto vemos imagens rotoscópicas dispersas. A natureza experimental do vídeo contrasta com a narratividade do áudio, proporcionando uma terceira camada que permite apreensão e repulsa, mas de forma desordenada. Eu Te Amo É no Sol (2022), de Yasmin Guimarães, mostra o reencontro das namoradas Mati e Júlia em um país de temperatura glacial. A frieza do lugar serve como metáfora para o sentimento de uma das personagens, que está em depressão. Como é um filme que depende muito de suas escolhas dramatúrgicas, nem sempre elas conseguem manter a mesma pulsão, embora o desconforto das protagonistas dê conta da fratura gerada pelo tempo em que estiveram distantes. No campo das narrativas intimistas, temos também Bicho Azul (2021), de Rafael Spínola. Nele, razão e emoção se encontram quando um pedido de e-mail traz à tona as sombras de um relacionamento acabado. O narrador descreve os últimos dias de seu cachorro, recentemente sacrificado, à medida que vemos imagens fantasmáticas do animal diante de um chafariz sem água. O filme, no entanto, provoca um milagre simbólico ao ressuscitar o cão e eternizá-lo em nossa memória.

Noutra perspectiva, também foram exibidos curtas com características muito próprias, de certa maneira destoantes do resto da seleção. Um deles é Rumo ao Desvio (2021), de Linga Acácio, experimento político com traços pessoais. No início, acompanhamos a própria diretora em cenas casuais. Em seguida, uma ferida na palma de sua mão muda o trajeto do filme, quando o sangue que escorre torna-se metáfora da transposição do Rio São Francisco. O simbolismo encanta ao surgir, porém se esgota rapidamente com a reiteração de seu discurso e a tentativa de associação com uma performance bastante abstrata.

Ingra! (2021), de Nicolas Thomé Zetune, constrói uma atmosfera que lembra a turma do Cinéma du Look (movimento cinematográfico francês dos anos 1980), num misto de editorial de moda e narrativa criminalesca. Perseguida por pessoas esquisitas, a protagonista singra pela cidade sem lenço e sem documento, mas com espaguetes de piscina numa sacola, um cigarro na boca e uma Coca-Cola na mão. Se a abstração performática de Rumo ao Desvio já é grande, aqui ela ganha dimensões colossais, sem necessariamente propor uma inventividade experimental que a atenda. O curta de Zetune preza pela incandescência do estilo, contudo é evasivo em relação às suas próprias escolhas formais.

A Morte de Lázaro (2021), de Bertô, é o último curta da Foco a ser comentado e também um corpo estranho sem precedentes na história da mostra. Confesso que não lembro de outro filme com teor bíblico exibido no programa nesses 10 anos que o acompanho. Enquanto narrativa, nada fora do comum. Já conhecemos a história da ressureição de Lázaro, o leproso trazido de volta à vida por Jesus. O filme encena os momentos que antecedem o milagre, protagonizado por um Cristo negro (Ítalo Martins) e conduzido com um formalismo aguçado. A recorrência aos rostos dos personagens, que quase sempre miram o extracampo, propõe uma espécie de liturgia na qual o divino encontra-se à altura do olhar humano. Pelo caráter possivelmente popular, algo raro na seleção, é uma pena que atenue uma fidelidade tão grande ao texto (que por vezes torna-se modorrento) e não permita uma reinterpretação mais contundente da passagem bíblica, afora a contundência de seu estilo.

As comunidades ressignificadas na mostra Aurora       

É no mínimo curioso que o primeiro filme exibido na Aurora, competitiva de longas, seja sobre uma comunidade formada por pessoas com hanseníase, doença também conhecida como lepra. Afinal, trata-se de um tema pouco debatido e quase nunca representado no cinema. Em A Colônia (2022), de Mozart Freire e Virgínia Pinho, o registro acompanha os habitantes do bairro Antônio Justa, em Maracanaú/CE, lugar criado nos anos 1940 para abrigar pessoas com essa enfermidade. Hoje em dia, o espaço agrega transformações sociais que tornam sua população ainda mais marginalizada. A obra concilia entrevistas com registros do cotidiano que pouco conversam entre si. Apesar da singeleza da abordagem, falta ao material uma articulação de montagem que seja realmente propositiva.      

Outro registro singelo de uma comunidade é visto em Grade (2022), de Lucas Andrade. Documentário forjado na APAC (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados) de São João del Rei/MG, um espaço de reclusão gerido pelos próprios detentos, o longa traz situações observacionais atravessadas por alguns momentos ficcionais. Se a parte observacional pouco acrescenta ao universo revelado, é nas cenas ficcionalizadas que o filme ganha fôlego. Como os detentos não podem sair desse lugar, outros espaços são fabricados através de um chroma-key tosco, cuja ingenuidade reforça o imaginário farsesco dos personagens. Embora a criatividade estabelecida com os sujeitos filmados (que inclusive assinam o roteiro) seja evidente, a obra padece de uma modulação de ritmo, dando atenção desmedida a conversas e registros prosaicos que enfraquecem sua estrutura.

A comunidade também é um microcosmo essencial em Panorama (2022), de Alexandre Wahrhafig. Na favela Jardim Panorama, em São Paulo/SP, a gentrificação tem sido iminente com a construção de prédios gigantescos que afetam a arquitetura e a economia local. O documentário produz um inventário do bairro a partir de imagens de arquivo e da memória de seus habitantes. Em grande parte constituído de observações sobre o cotidiano, seu maior vigor está nas entrevistas. É o relato dos atores sociais que nos faz criar vínculo com a história do lugar e entender as dores, angústias e alentos de sua população.

Em Maputo Nakuzandza (2022), de Ariadine Zampaulo, a câmera segue um dia na vida de diversos moradores da capital moçambicana. Uma transmissão radiofônica as acompanha enquanto vemos os relatos dos locutores atravessarem a narrativa. O filme parte de uma proposta documental, mas logo apresenta traços ficcionais e até mesmo experimentais. Alguns personagens constituem arquétipos bastante peculiares, como o homem corredor ou a noiva em fuga. No fim das contas, a pluralidade de tramas e estilos consegue manter equilíbrio em todo o percurso e ainda desperta curiosidade sobre os rumos tomados. Aos poucos, percebemos que os fatos narrados apresentam uma visão crítica ao conservadorismo e aos abusos sofridos por mulheres. Tais aspectos políticos se entranham na estrutura do filme e trazem uma boa noção de como conciliar política e estética numa obra cinematográfica.

O escritor argentino Macedonio Fernández começou a esboçar “O Museu do Romance da Eterna” em 1904 e morreu em 1952 sem concluí-lo. Composto de prólogos que anunciam uma trama que nunca começa, o livro é epítome de seu próprio processo, marcado por uma imprevisível vontade de experimentar a linguagem literária. Tal obra, publicada postumamente em 1967, me veio à memória quando assisti a Sessão Bruta (2022), dos coletivos As Talavistas e ela ltda. No festival inteiro, talvez nenhum filme tenha trazido tanta imprevisibilidade como esse. Sua estrutura é permeada por uma deriva sem fim, através da qual travestis e pessoas não binárias performam uma relação com o mundo e questionam sua existência. No centro das atenções, bastidores de um filme que deseja ser feito, porém sem a certeza de como. Aliás, a provocação do longa é justamente repensar a relação com as certezas diante da experiência LGBTQIA+, seja sobre a tecnologia e a técnica, o corpo e a representatividade, a sobrevivência e a transformação. Vencedor da mostra Aurora, eis um filme que nos indica que ainda é possível sermos atropelados pelo inesperado e mesmo assim confrontá-lo.

Embate é o que não falta em Bem-vindos de Novo (2022), de Marcos Yoshi. O diretor coloca em xeque a relação com os pais, descendentes japoneses que foram à Terra do Sol Nascente em busca de emprego, deixando os filhos adolescentes para trás. Ao retornarem ao Brasil somente 13 anos depois, é inevitável a fratura estabelecida pelos tempo ausente. Constituído de entrevistas e um estilo observativo predominante, o documentário manifesta a amargura presente nos laços familiares. Há também um enfoque na precarização do trabalho e na condição eternamente imigrante dos personagens. O ritmo vagaroso de sua construção acentua o soco de estômago que tomamos no final, quando a família se separa novamente em meio à crise econômica que a atinge. O único ponto fraco é a narração ensaística feita pelo próprio cineasta, que abrange grande parte do filme e tenta direcionar o olhar dos espectadores de forma controladora.  

Controle é o que também mobiliza Francisco (Fábio Leal), que está há meses sem transar por causa da quarentena imposta pela Covid-19. O protagonista de Seguindo Todos os Protocolos (2022), de Fábio Leal, é um sujeito como outros tantos que desejam se divertir, porém têm receio de se contaminar. Difícil é convencer seus parceiros, que estão em outra vibe, embora tentem se adequar às prerrogativas do rapaz. Com um humor satírico e ao mesmo tempo melancólico, o longa é uma grata surpresa ante a horda de filmes de confinamento realizados durante a pandemia. Em contraste, temos os corpos nus e os rostos cobertos de máscaras, articulação estranha que desvela a naturalização dos absurdos que acostumamos a viver nos últimos anos. A vida em torno de Francisco gera uma comunidade muito própria, através da qual o negacionismo e a preocupação andam de mãos dadas. Enfim, somente a ciência e o toque na pele podem aliviar nossas agonias nesses tempos de caos. Embora pudesse ter ganhado a láurea de melhor filme da Aurora, a obtenção do prêmio Helena Ignez (de destaque feminino da mostra) à produtora Juliana Soares caiu como luva, até porque as dificuldades do processo de confecção do filme podem ser notadas de imediato.