Inocentes (2017), de Douglas Soares

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Um filme banal

João Campos

Filmes de homenagem me interessam e, geralmente, me comovem. Este não é o caso de Inocentes (2017), curta-metragem de Douglas Soares. A obra instaura um interessante jogo imagético, a partir do qual o processo criativo do artista Alair Gomes é representado pela câmera de cinema. Além disso, em voz over, cartas do fotógrafo relativas ao seu trabalho e vida são lidas, complementando a experiência. Contudo, o que parecia uma proposta cinematográfica contundente, se transforma numa tentativa inócua de transposição da forma da fotografia do artista para uma mise-en-scène pedante, distanciando o filme de outras obras recentes que esboçam homenagens a artistas, como Ferroada (2017), de Adriana Barbosa e Bruno Mello Castanho (Coletivo Cinefusão) ou O cinema segundo Luiz Rô (2013), de Renato Coelho (Coletivo Atos da Mooca).

Inocentes é um emplastro, um fracasso maçante – mas em P&B – que tenta simular de formas ingênuas uma operação estética cara ao cinema: a janela indiscreta. As consequências de um filme-emplastro são severas: fazem parecer, através de processos frágeis, que uma obra e uma vida se convertem – ao menos no ecrãem banalidade. Há belos momentos fotográficos, como quando o personagem de Alair Gomes observa os corpos robustos dos jovens que se exercitam na praia – aqui está a única beleza do filme, lembrar das fotografias do artista. Porém, o diretor e seu fotógrafo fizeram questão de inserir, a todo momento, objetos diversos em primeiro plano, simulando ingenuamente a experiência do voyeur. O germe do fracasso está aí, mas não exclusivamente, pois o que faz o filme desabar é a sua segunda metade, a partir da qual os homens observados iniciam um processo de masturbação pseudo-artística que não reflete a potência das fotografias de Alair Gomes – obviamente não esperamos que o filme possua a mesma qualidade que o trabalho do artista, mas penso que o primeiro não consegue nem se aproximar da beleza do segundo.

A colagem, no filme, da série de fotografias de Alair sobre o carnaval carioca lampeja como a única possibilidade de salvação de Inocentes. Aqui há uma fricção necessária, uma ruptura que poderia ser o início de um descontrole das formas da obra. Porém, insulada num filme banal, as fotografias perdem a sua força.

Retomando a comparação: ao contrário dos mencionados Ferroada e O cinema segundo Luiz Rô, que homenageiam, simultaneamente, Tico e Luiz Rosemberg Filho, Inocentes tenta dar conta de muito – se não tudo. E enquanto os primeiros trabalham o fragmento, o vestígio e o encontro em tensão, o segundo busca dar uma forma conciliatória – e, por isso, redutora e banalizante – ao universo documentado.