Tentei, de Laís Melo

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O peso da duração

João Campos

Muito do cinema contemporâneo diz respeito à composição atmosférica e vibração dos corpos de atores e não-atores que transitam num mundo em colapso – e ruínas. Na obra de estréia de Laís Melo, os dois elementos supracitados estruturam uma mise-en-scène de delicadeza destrutiva. O filme acompanha o dia de Glória, personagem que, já nas primeiras sequências, impõe o peso de sua resistência. A equipe do filme é formada majoritariamente por mulheres, e esse encontro incisivo resultou num dos maiores destaques da mostra competitiva de curtas-metragens dessa edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Na cama, ao lado do companheiro violador, Glória aguarda o dia amanhecer a fim de seguir rumo à delegacia de mulheres, onde realiza a tentativa (frustrada pelo sistema burocrático) de denúncia contra as violências de seu marido. Este repousa na cena do crime: o lar. O percurso da protagonista consiste em acordar, tomar café da manhã, seguir de ônibus para a delegacia, tentar, fracassar e explodir – a explosão é performática. Em tal curta e intensa travessia, acompanhamos, estarrecidos, um corpo sobrevivente que emana ódio, filmado de uma perspectiva seca, com sangue nos olhos.

A prevalência de planos-sequência fechados, em constante movimento devido à câmera na mão, esconde mais do que mostra, mas dá a ver, de maneira convulsiva e reveladora, um processo invisível – para muitas e, obviamente, todos –, que precisa ser mostrado. A atuação de Patrícia Saravy (que interpreta Glória) é de uma potência devastadora: seus gestos e movimentos instauram, em relação à câmera de Renata Correa, uma coreografia apocalíptica e silenciosa – a voz não sai, mas o gesto emite os sinais da desgraça e da rebelião iminente.

A forma de filmar o conflito se assemelha a Rosetta (1999), obra-prima dos Irmãos Dardenne, que explora os movimentos enérgicos de uma jovem que sobrevive nas ruínas do capitalismo, pulando de emprego a emprego, entre violências. Em Tentei (2017), a mesma convulsão imagética toma conta do quadro, provocando no espectador a uma experiência sensorial tensa. O roteiro é minimalista, de uma aridez capaz de criar pontos de contato entre um contexto social de silêncio e abuso e a rebelião gestual que lampeja no último plano, em que Glória se debate convulsivamente, numa performance que nos olha e fere. Um filme sensorial que faz política no gesto, na decupagem, no texto e na montagem.