Círculos na água

 

Fábio Feldman

I.

Uma de minhas histórias de amor favoritas.

A versão de Peter Brook de “Tito Andrônico” estreia nos palcos ingleses. Até então tida como uma peça menor no interior do cânone shakespeariano, ela é, por Brook, reimaginada e ressignificada. O genial diretor, em pleno século XX, “descobre Shakespeare em Tito”, aproximando o mundo pós-guerra do Theatrum Mundi renascentista.

Influenciado pela abordagem brookiana, um jovem crítico chamado Jan Kott escreve um livro de nome sugestivo: “Shakespeare, nosso contemporâneo”. Em suas páginas, não se encontra o Shakespeare de Goethe, Schiller, Schlegel e demais românticos; não se encontra o autor transicional de A.C. Bradley ou o titânico de Harold Bloom; especialmente, não se encontra o Shakespeare dos shakespearianos de sua época. Antes, ao lê-las, deparamo-nos com o retrato de um artista desencantado, sombrio, quase existencialista.

A ponte entre Auschwitz e a Escócia de Macbeth é encurtada. As comédias e peças históricas são banhadas em sangue trágico. E uma visão de mundo grotesca, essencialmente moderna, encontra seu germe no enforcamento de Cordélia.

Brook lê o livro. Inspirado por aquele que inspirou, cria sua monumental versão de “Rei Lear” (posteriormente adaptada para o cinema). E é lá, sob as sombras do antigo e do moderno, de um bardo milenar e de um Beckett onipresente, que artista e crítico dialogam, se ouvem, se tocam – se amam.

 

II.

Se a história de amor entre (os Shakespeares de) Brook e Kott prova algo é que crítica e arte podem andar de mãos dadas; podem impulsionar uma à outra; podem mesmo abrir espaços inéditos e convidativos. O que a história não explica é o que os termos “arte” e “crítica” significam.

Ambos são produtos históricos, dotados de materialidade. OK. E ambos parecem ter potencial para afetar indivíduos e sociedades. OK de novo.

Entretanto, o modo como a arte opera é sempre misterioso. Puro devir, ela é passível de ser experienciada nos mais diversos tempos e espaços, pelas mais distintas subjetividades. Talvez a história mencionada também nos prove isso: o Shakespeare de Kott espelha o de Brook que espelha o de Kott. Mas quem é O Shakespeare? Quem são Lear, Hamlet, Caliban? Definitivamente, o Tito de Brook não era o de Bárbara Heliodora – e, talvez, sequer seja o de Brook hoje. Na verdade, o Tito de Brook nunca foi – porque a arte nunca é.

O modo como a crítica opera, a meu ver, é também nebuloso. Desde Kant nos debatemos com a dúvida: não sendo possível fundamentar o discurso artístico, o que significa o gesto crítico? Seria uma tentativa de jogar ao mar uma âncora de dentro de um navio fantasma? Ou de intensificar ainda mais o brilho de uma estrela?

 

III.

No início de sua carta a Leo Popper, diz Lukács:

“Até que ponto os escritos (…) incluídos nessa categoria [a crítica] possuem uma forma, e até que ponto trata-se de uma forma autônoma? Até que ponto o tipo de intuição e configuração que caracteriza essa forma desloca a obra do campo da ciência e a traz para junto da arte, mas sem apagar as fronteiras que a separam desta última? Até que ponto lhe confere a força para uma nova ordenação conceitual da vida, mantendo-a ao mesmo tempo distante da fria e definitiva perfeição filosófica?”

Em suma: até que ponto a crítica se configura como área de conhecimento, estando sempre atrelada a uma fonte ilimitada de sentidos; nunca podendo se valer dos trajes da ciência (apesar de, tantas vezes, se valer de seu linguajar…); e não podendo se impor plenamente enquanto aquilo que busca “espelhar”?

Nessa passagem, o teórico húngaro parece refutar tanto a ideia de crítica enquanto resultado de esforço heurístico quanto hermenêutico. Porque a arte não é quebra-cabeças. E tampouco é “interpretável”.

O que sobra, então?

 

IV.

Durante meu passado acadêmico, arte e crítica me eram servidos quase sempre num mesmo prato. Hoje percebo que meu Dostoiévski não é mais o de Bakhtin, embora meu Mallarmé siga colado ao de Friedrich. Quando migrei pro cinema, as palavras de Ismail me guiaram em direção a Glauber – não aquele que, em tempos de juventude, considerava um mero filhote de Godard, mas o que hoje tanto amo. E que já nem lembra tanto o de Ismail!

A “boa crítica”, portanto, não me parece ser aquela que “desvenda o segredo da obra”, mas a que expande (por vezes, violentamente) a percepção do leitor; e que, num determinado momento, afaga – como afagaram Brook as palavras de Kott.

Ao dizer isso, não atesto nada acerca do que, filosoficamente falando, a crítica é. Apenas reflito sobre seu efeito e o encanto que frequentemente desperta em mim.

Todavia, sei também que o gesto que liberta pode ser aquele que escraviza. E mesmo a “boa crítica”, responsável por derrubar as represas da percepção estética num momento, pode se tornar uma prisão em outro. Todo texto crítico é uma faca de dois gumes. Em sintonia com ele, podemos abrir nossos olhos ou nos cegar totalmente.

 

V.

Se a crítica não interpreta, haja vista que não há o que ser interpretado; se não é ciência, uma vez que seu objeto escarnece de qualquer método; se o campo epistemológico que habita é, no mínimo, ambíguo (e, no máximo, absurdo); e se o sentimento de libertação/ampliação do olhar que gera num instante, pode trancá-lo em outro – então, por que criticamos?

A resposta é óbvia: porque não podemos nos furtar a fazê-lo.

Pergunto-me se existe uma forma de falar sobre a arte que seja essencialmente respeitosa, não-objetificante ou castrada por vícios pseudo-científicos, sem nunca atingir respostas. Porém, creio saber de onde o discurso crítico vem. Não podemos nos furtar a expressar o que sentimos diante do infinito. E, ao profaná-lo, apenas tentamos expressar o nosso amor.

Acredito em Jean Douchet quando atesta que a crítica é a arte de amar. Se ela “atinge sua vocação primeira, tornando-se ela mesma uma arte”, aí já não sei. Mas creio fortemente que, se “boa”, vem de um lugar de afeto.

 

VI.

Certo dia, pensando no panorama contemporâneo da crítica cinematográfica brasileira, no meu trabalho enquanto editor e crítico, em todas as dúvidas que, por vezes, me paralisam, e todas as pulsões que me impelem a seguir, como num jorro, redigi e postei um texto no facebook. Reproduzo-o:

Tenho me perguntado sobre o sentido da crítica de arte. O que significa ser um crítico? Sei que a arte tem forma – e não nasce do chão. Sei que gera efeitos – e efeitos bem difíceis de precisar. Sei que não possui valor em si. Ou mesmo sentido.

O que É, aí são outros quinhentos.

Talvez não seja da alçada do crítico defini-la. Mas fico me perguntando, quando me pergunto sobre o sentido da crítica de arte: o que significa ser um crítico? O que faz alguém que vive para “analisar” essas formas sem chão, em eterno processo de reverberação, desprovidas de passado, pecado e perdão? O que faz alguém que quer tanto dizer de um objeto inobjetificável, uma coisa infinita, tão gigante quanto Alice – e tão minúscula quanto ela? O que faz alguém que diante de formas – carregadas de possibilidade e esvaziadas de porquê – só vê liberdade pulsando pra tudo que é lado?

Tenho me perguntado sobre essas coisas e chegado à conclusão de que o crítico é como uma criança batendo as pernas na beira do mar. Não está ali pra vencer o mar, pra ler o mar, pra encalacrar o mar em um labirinto, pra libertar o mar através de hermenêutica de botequim. Porque o mar não precisa ser libertado. E a arte não precisa do crítico.

Como críticos, tudo o que podemos fazer é nos entregar às formas (que, em si, nada mais são do que formas), projetar sentidos e cravar, no branco da página, nossas sempre ambíguas impressões. Como um tolo apaixonado dando arquitetura e coloração a seu amor. Como uma dançarina de ballet, tentando talhar um novo corpo entre as correntes de ar. Como uma criança batendo os pés na água – agitando-a, espalhando-a, e nos lembrando do tamanho infinito do oceano.

Quando abri o site que edito, escolhi o nome Rocinante por motivos algo aleatórios. Hoje, ele me parece mais preciso do que nunca. Todo crítico é meio Quixote, cruzando estradas estranhas, cheio de entusiasmo e palavras. É isso o que significa ser um crítico pra mim: não elucidar os incautos, não promover os feitos da cavalaria, não falar sobre o “estado-de-coisas” da velha Espanha – mas rumar. E sentir. E retraduzir, ainda que de modo pobre, os efeitos suscitados pelas formas originárias do mundo ficcional.

Ser crítico pra mim é só um bater de pernas. Uma troca, um diálogo, uma expansão – um gesto amoroso. Todo o resto é politicagem e perfumaria.

 

*

Horas depois de postado o texto, um aluno me manda pelo WhatsApp uma citação de André Bazin: “A função do crítico não é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar o máximo possível, na inteligência e na sensibilidade dos que o leem, o impacto da obra de arte”.

Nunca entenderei o sentido último do que fazemos ao criticar. Mas acredito em Bazin: a crítica é a arte do prolongar. E sem definições claras, na corda bamba, entre a liberdade e o claustro, o afago e a porrada, seguimos – ampliando e apagando círculos na água.