Notas sobre uma dúvida: o horizonte político e a crítica cinematográfica

Laís Ferreira Oliveira

O que pode a crítica cinematográfica enquanto gesto político?

Não tenho respostas para tal questão. Talvez isso seja o movimento que possa guiar este texto e o desejo de escrevê-lo. Alimentar a dúvida, antes de mais nada. Vasculhar lacunas, colocar em curso a possibilidade de pensarmos. Discutir sem resposta a priori, em pacto com o leitor. Começar uma análise na certeza de que, talvez, ao chegarmos ao fim, saibamos que não tivemos nada produtivo. Apenas seguimos aqui, convivendo com a dúvida e com o não saber.

Em se tratando da dinâmica de mercado – pensando de maneira ampla e estendida – não produzir nada é estranho. A órbita e a lógica de consumo se relacionam com algo que pode ser digerido, utilizado, aproveitado de alguma forma. Esse pode ser um pressuposto também da dinâmica do mercado da arte, cuja ambiência propõe a valoração de um determinado artista, o reconhecimento e a premiação do talento. A obra de arte, ao provocar a experiência estética, é percebida na expectativa que algo possa despertar naquele que dela usufrui. No entanto, o juízo estético é perigoso. Talvez, porque limite o que uma criação provoque para além de uma primeira impressão.

No caso específico do cinema, os festivais são janelas importantíssimas para o entendimento dos filmes produzidos no país e na resposta do audiovisual ao nosso tempo. Criam, porém, parâmetros de avaliação estética que, por vezes, limitam as reverberações de um filme. Ouvimos, por exemplo, sobre a recepção de filmes urgentes, considerando-se a importância dos aspectos sociopolíticos neles presentes – um filme que revele a realidade dos pobres e das minorias, por exemplo. No entanto, essa urgência, alimentada também pela necessidade de se premiar alguém, de reconhecer um filme como o melhor, impede, muitas vezes, o aprofundamento de discussões outras. Debates nos quais seja possível ultrapassar a finalidade da discussão de um filme no âmbito de uma competição e possamos pensá-lo de forma mais detalhada num escopo histórico e estético do estudo da imagem. Um crítico convidado se debate com uma questão delicada: é preciso ter algo a dizer. Às vezes, pode-se tratar do caso de não dizer nada. Nem todos os dias o que acontece, aquilo que assistimos, pode ser motivo de fruição. Vez ou outra, será o caso de apenas mais um dia no qual vivemos à espera que algo bonito aconteça. Talvez, assim seja a procura de qualquer maravilha. E, nesse universo, possamos ainda pensar em um crítico como quem vive a vasculhar a terra, garimpar dentre pedras qualquer coisa que cintile. Por vezes, só encontraremos mesmo terra e brita. Mas é difícil reconhecer isso quando se possam ter clientes ávidos por joias.

Em O que é política?, livro com fragmentos de obras póstumas de Hannah Arendt, apreendemos que o sentido da política é a liberdade. Recordamos também que o espaço da política é o espaço público. Dessa obra, destaco duas citações: “a política organiza, de antemão, as diversidades absolutas de acordo com uma igualdade relativa e em contrapartida às diferenças relativas” e “a política tem de lidar sempre e em toda parte com o esclarecimento e com a dispersão de preconceitos”. Partindo daí, podemos pensar que o sentido da coisa política pressuporia que mantivéssemos vivo o sentido da diferença e a probabilidade de encararmos algo novo. Algo do qual duvidássemos ao ponto de nos levar a mudar de pensamento. Esse me parece ser o maior desafio da crítica cinematográfica. Se ela tem em si a possibilidade de agenciar discursos e sentidos públicos, a partir de sua inserção no mercado da arte,  exige o confronto com os limites necessários para conseguir pensar com liberdade. Dentro de uma esfera competitiva, já pode ser esperada a resposta do crítico a algo, a elucubração sobre o melhor filme. Esse lugar da recepção dificulta que avancemos politicamente. Nesse modelo, nossas conversas tornam mais nebuloso o olhar capaz de estabelecer diferenças. Terminamos por nos interessar mais pelo vencedor – a partir da opressão daquele que perde – do que por conversas que possam ser iluminadas e esclarecidas pelo simples processo de encontro com uma obra cinematográfica. Enquanto isso, persistem filmes que, por ventura, possam significar algo apenas meses ou anos depois, para além do que impõe nossa urgência em validá-los como bons ou ruins.

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Sobre a autora:

Laís Ferreira Oliveira é poeta, escritora e artista visual. É doutoranda em comunicação e cultura, com ênfase nas tecnologias da comunicação e estática na UFRJ. Mestra em comunicação pela UFF (2018) e graduada em comunicação social pela UFMG (2016). É autora dos livros “Ao norte, ao chão” (Editora Moinhos, 2017), “Canções do Porto e do Mar” (Editora Multifoco, 2017) e “Caderno de Bolsa” (Chiado Editora, 2015). Edita e escreve críticas de cinema para a Revista Moventes (www.revistamoventes.com).