A Voz Suprema do Blues (2020), de George C. Wolfe

A música presa por grilhões

Douglas König de Oliveira

A transposição de uma peça teatral para o formato cinematográfico, por vezes, coloca alguns dilemas para quem se propõe a avaliar seus méritos: em que sentido as ferramentas do cinema potencializam o que foi concebido para o palco? Como preservar a singularidade da atuação em um espaço teatral, em contraste com o registro mecânico e incorruptível do filme? O texto crítico deve ater-se às qualidades compatíveis entre as duas expressões, seus aspectos compartilhados, como a exposição do texto e as atuações, ou analisar o sucesso da transliteração de uma arte em outra, baseada apenas na análise da dinâmica do cinema? O crítico de cinema teria necessidade de ser também um crítico teatral, para então emitir pareceres sobre o estilo do autor da peça, sobre a relevância de sua dramaturgia? Ou poderia se refugiar numa instância formal, tratando unicamente dos meios de sua competência?

A Voz Suprema do Blues (2020), baseado na peça de teatro “Ma Rainey’s Black Bottom”, do dramaturgo norte-americano August Wilson, tem poucas qualidades cinematográficas notáveis, além de ser um veículo razoável para que o texto e as atuações brilhem. Mas se o objetivo do filme for provavelmente este, o equívoco é de quem pretende impor objetivos e ambições alheias ao projeto. Se imaginamos o tema e o texto com sua potência melhor aplicados na materialidade da atuação teatral, ao invés da construção virtual do espaço fílmico, deveríamos procurar, em uma primeira oportunidade, um ciclo das obras de August Wilson, para apreciar a legítima dimensão desses elementos que o filme toma emprestado, mas dos quais não parece desejar, em nenhum momento, se desvincular. Como sabemos da escassez desse tipo de oferta cultural, e do alcance e facilidade dos serviços de streaming, podemos considerar essa adaptação uma justa divulgação da obra do dramaturgo, repleta de senso histórico e social. Mas isso não abona a falta de ousadia que permeia o filme, tornando um contexto cultural tão incisivo em algo por demais diluído para a audiência.

Seguimos os passos da cantora Ma Rainey, considerada uma das pioneiras do blues, e sua peregrinação pelo norte dos Estados Unidos, mais especificamente Chicago, para a gravação de um álbum por uma grande gravadora. Apesar do contexto musical, os números são poucos, mas demonstram bem a maestria da cantora e da banda no seu ambiente de expressão artística. Os embates da personagem de Viola Davis com seu produtor são um tanto caricatos e pitorescos, não ilustrando bem as tensões raciais e comerciais que permeiam o ambiente do estúdio durante as sessões de gravação. A interação dos músicos na sua ausência consegue uma dinâmica muito mais intensa e diversificada, indo da comédia ao drama pesado, até a desilusão e a tragédia. Ali se destaca o personagem de Chadwick Boseman, um trompetista tão genioso quanto a cantora principal, e que tenta a todo custo obter sua independência dentro do processo industrial de comercialização de música negra para o público branco, que era o objetivo dessa sessão.

Os dois personagens são os que mais rivalizam desde as sequências iniciais do filme, até concluírem, independentemente, no desfecho, que são vítimas do mesmo processo de exploração, semelhante à escravidão de seus antepassados recentes no sul dos Estados Unidos. O produtor e o proprietário da gravadora, ambos brancos, não fazem questão de integrá-los diretamente ao mercado musical, mas antes, utilizam o que lhe é proveitoso para obtenção de lucro. De volta à sua relativa marginalidade em relação ao mundo da produção industrial de entretenimento, a cantora de blues e o trompetista veem sua música, que é a crônica de sofrimentos ancestrais, mas ainda latentes, tornar-se produto de círculos que os tomam apenas como criações exóticas. O abismo dessa situação, de certa forma, degenera o espírito que a arte edifica. E nem todos são fortes o bastante para ultrapassarem inteiros o processo.

O tratamento dado a este enredo é bastante modesto, sendo utilizadas poucas cenas que não remetam ao ambiente do palco de teatro. Mas alguns silêncios e perplexidades dos personagens preservam, provavelmente, a força da concepção original, apesar de o cinema conseguir amenizar este impacto por escolhas mais convencionais no uso da linguagem. O que talvez não fosse desejável, visto a relevância e a força dos dramas ali representados.