Democracia em Vertigem (2019), de Petra Costa

Dronecracia

André Berzagui

“Nem sempre a gente sabe o que está filmando”, afirma Chris Marker. Eu acrescentaria ainda que “nós nunca sabemos o que se tornará aquilo que filmamos”. Filmes-ensaio, por vezes, propõem-se ao exercício de pensar sobre a natureza dos arquivos que os constituem, promovendo a dialética entre cineasta e imagem. Tal movimento abre a possibilidade de rompimento entre as intenções do diretor e o corpo imagético do filme. Não por acaso, João Moreira Salles começa No Intenso Agora (2017) citando Marker, palavras – mantra — que, depois de Santiago (2006), servem de guia e aviso.

Em Democracia em Vertigem (2019), Petra Costa filma planos-tese e faz do arquivo mero subterfúgio para as intenções que possui, afogando qualquer possibilidade de reflexão sobre as imagens. Através do drone que sobrevoa o Planalto mostrando o muro que nos divide, cria-se uma imagem-síntese do país diante do conturbado cenário político dos últimos anos.

A escolha de um plano zenital para representar esse momento é sintomática. O filme se distancia desse lugar como alguém se afasta da caverna. Se a cosmética da fome, de Ivana Bentes, já condenava as dollys que faziam do sertão um espaço de turismo, temos aqui um efeito semelhante. O sobrevoo estável posiciona o espectador de forma confortável em meio às fissuras da política nacional, causando a impressão de um passeio agradável num calmo domingo.

Do drone às entrevistas, nunca se discute a natureza das imagens. Quando conta a história de seus pais, que lutaram contra a ditadura militar, Costa relata a ausência de arquivos desse período. O relato justapõe a construção de seu próprio documentário, demarcado pelos lugares mais privilegiados dos quais goza a diretora, desde a entrevista com a ex-presidente Dilma Rousseff às confissões do golpe advindas de dentro do poder.

E é de dentro do Planalto que surge o depoimento mais lúcido do filme. Num momento de franca entrega, uma das faxineiras abordadas diz que não existe democracia. Contudo, Costa pouco se detém ao assunto e logo volta aos seus interesses originais, ligados à noção de política como uma representação macrossocial indistinta. Não é à toa que isso é filmado de dentro do Planalto, uma vez que, fora dali, pessoas como a faxineira são grãos divididos por um muro. O fácil acesso de Costa torna-se sua própria armadilha porque aqueles que mais ocupam a tela são os que talvez menos dependam da democracia. É preciso lembrar-se onde estava a câmera de Hirszman durante a greve do ABC, por exemplo, sempre à altura do trabalhador.

Além de não questionar a diferença entre os documentos atuais e os dos tempos da ditadura, a diretora adultera uma foto relativa ao assassinato de ativistas do Partido Comunista durante o regime militar. Ao retirar da foto as armas plantadas, numa tentativa de reconstituir algo mais próximo do que teria acontecido, ela acaba por contribuir com o apagamento das atrocidades cometidas na ditadura. Uma vez que é sabido que a cena é forjada, ela rompe-se das intenções primárias e torna-se um documento que mostra como a ditadura violou a realidade para constituir uma imagem que corrobora a narrativa fascista do período. Ao editar o registro, Costa presume uma verdade. Suas intenções com ela apagam a história tornando o arquivo um artifício, ao invés de um ponto de reflexão sobre como a imagem foi apropriada pelos ditadores.

Democracia em Vertigem constrói uma narrativa cronológica, que se faz necessária, já que é visado contar acontecimentos da redemocratização ao impeachment de Dilma Rousseff, porém colide com a vontade de ser um filme-ensaio. As imagens usadas para representar esses eventos parecem ser escolhidas numa primeira intenção para que sirvam à poesia que Costa pretende subtrair dos eventos. As duas têm a mesma idade, diz a diretora, num tom não de coincidência, mas de conexão transcendental, que lhe dá o direito de contar a história coletiva por uma ótica individual.

Mais adiante, utiliza-se da posse de Dilma Rousseff, na qual o então vice-presidente Michel Temer a acompanha passos atrás. Petra olha em retrospecto para essa imagem como se ela denunciasse o que estava por vir. Trata-se de uma retórica confortável que faz da política um senso comum, sem nunca discutir como o projeto democrático é utilizado para perpetuar aqueles que sempre tiveram o poder. Através de seu lirismo, Costa vai costurando a história de nossa “jovem democracia”, linha poética que culmina no nome do filme e no emblemático registro feito de um drone. Nossa democracia estaria em vertigem, entretanto só pode ser sentida por quem tem possibilidade de vê-la de cima. Em contrapartida, quem está no chão sequer considera sua existência.