Dor e Glória (2019), de Pedro Amodóvar

O desejo e o envelhecimento gay

Lea Monteiro

Em Dor e Glória (2019), na primeira aparição do protagonista, Salvador Mallo (personagem que, segundo Pedro Almodóvar, é inspirado em si mesmo), ele está imerso em uma piscina, mergulhado. É significativo que Almodóvar denote, já nessa primeira cena, através de recursos imagéticos, que esse filme se trata de uma narrativa em que os sentimentos conduzirão toda a trama. Enquanto em Breaking Bad (2008-2013) as piscinas estão sempre compondo as mise-en-scènes, ainda que nunca sejam usadas, para representar um distanciamento abrupto entre os personagens e o que sentem, em Dor e Glória a piscina significa que Salvador estará, durante toda a obra, mergulhado em suas memórias e sentimentos.

Salvador Mallo é o homem gay que envelheceu. Se em filmes como A Lei do Desejo (1987) e A Má Educação (2004), o desejo ocupa um lugar sensual e pivotal na vida dos jovens diretores de cinema que se apaixonam por um homem inacessível, aqui ele aparece em outro campo. Salvador, diante de dores corporais as mais diversas e da depressão que o impende de escrever e produzir, passa a procurar na heroína estímulos de desejos do passado. É através dessa droga que somos transportados para a maior parte dos flashbacks de sua infância.

Ao logo do filme, Almodóvar indica que há na infância de Salvador conflitos que nunca se dissiparam ao longo da vida do protagonista. Isso fica claro seja na relação com a mãe, seja na com seu primeiro aluno, um pintor analfabeto que ele ensina a ler e a escrever ainda muito novo. Essas memórias acabam por culminar em dois dos mais emblemáticos momentos do filme. O primeiro é constituído pelas conversas que teve com sua mãe nos meses antes de sua morte, que são preenchidas pela culpa, de ambas as partes.

No fim do filme, ao confessar que, após 4 anos, ainda não superou o falecimento da mãe, é significativa a memória que ela lhe deixou de seu ovo de madeira, que usava para costurar ainda na sua infância, como herança. A caixa em que Salvador guarda esse e outros objetos pode ser melhor entendida se voltarmos ao livro Luto e Melancolia (1917), de Sigmund Freud. Segundo o autor, no processo do luto, ao desligarmos as pulsões que mantínhamos com o ente perdido, uma vez não conseguindo investi-las da mesma forma em outro objeto, nós o incorporamos ao eu. Assim, o ovo de madeira usado para costurar, tão característico de sua mãe, torna-se um objeto seu, de forma que ele a conserva na superfície do eu.

Entretanto, a aparição dos conflitos, de forma mais explícita, com a mãe, me parece abrupta e repentina, traindo o ritmo do filme. O personagem, que estava se afundando cada vez mais em seu vício em heroína, em um denso processo de adoecimento, passa a lidar com outros traumas, o que faz com que o problema com as drogas não seja aprofundado, pelo contrário, seja deixado de lado, facilmente resolvido em um consultório médico. No decorrer do filme, nada indica que seus problemas depressivos sejam frutos de sua relação materna – ou apenas de sua relação materna. Portanto, quando o filme se torna uma obra sobre luto, o que acontece é que há uma transição um tanto quanto forçada, que deixa pontas soltas.

O segundo momento é aquele que dá inspiração para o novo filme de Salvador Mallo, El Primer Deseo. A relação com Eduardo, o pintor, que trabalha em sua casa em troca de suas aulas, acaba por provocar, em Salvador, seu primeiro desejo sexual. Tudo nessa cena é icônico. Eduardo decide desenhar Salvador enquanto este lê. O menino, naquele momento, percebe a pulsão escópica que está em jogo na situação. Pela primeira vez, recebe a atenção e o olhar de alguém que está completamente focado nele. Em seguida, Eduardo pede para tomar um banho. Salvador lhe entrega o sabonete e vai se deitar. Começa a arder em febre, o que não o impede de se levantar e levar a toalha para Eduardo, que é visto completamente nu por Salvador. Este  desmaia e começa a queimar em febre ainda mais. Estava ali diante do seu primeiro desejo.

O arder de desejos mal resolvidos parece ter sido recorrente na vida de Salvador. Após aceitar que o ator de seu filme Sabor, Alberto, com o qual não falava há 32 anos, interpretasse um texto muito pessoal que escreveu, intitulado “O vício”, ele se reencontra com o personagem de Federico. Este nos é apresentado como o maior envolvimento da vida de Salvador. Na época em que fazia seus primeiros filmes, o diretor estava apaixonado por Federico, que sabotara o relacionamento por conta do seu vício em heroína. Por obra do acaso, ele acaba assistindo à peça escrita por Salvador, que fala da relação dos dois.

É latente o desejo que sentem um pelo outro, mesmo depois de tantos anos afastados. Nesse reencontro, abre-se caminho para uma produção incessante de desejos, mas Salvador escolhe não investir nos mesmos – pelo contrário, passa a investir em outros. Mesmo que os dois estivessem de pau duro, diante da oferta de Federico de dormir abraçado com o protagonista, Salvador escolhe não investir nessa relação do passado, ainda que fosse recheada de afetos.  

Decide, a partir dessa reconciliação com o passado, dar um jeito do presente. Na mesma noite joga fora a heroína que ainda tinha e liga para sua amiga, revelando que resolveu ir ao médico. Ao compartilhar do trauma que foi ter perdido sua mãe, ele cria uma abertura para sua cúmplice que não havia criado para sua progenitora. Permite que venha morar com ele e compartilhe de sua vida. Dessa forma, acaba por transferir para a amiga aquilo que não mais poderia proporcionar à sua mãe.

Com a resolução de tais questões, o filme se encerra com um feixe de esperança. Ao trabalhar as questões que lhe incomodavam no passado, como as relações com sua mãe, com um grande amor, com desavenças profissionais e com o objeto primeiro do desejo, Salvador nos mostra que é possível romper longos ciclos de depressão e encontrar, mesmo que na velhice, algo que lhe impulsione.

Almodóvar usa da metalinguagem para comunicar tais anseios. Na cena final do filme, vemos Salvador criança e sua mãe deitados. O ângulo da câmera começa a se abrir, revelando uma técnica de som. As memórias de sua infância, que acompanhamos durante todo o filme, se tratavam de um filme dentro do filme. São recriações fictícias de Salvador para entrar em termos com sua própria infância.

Como na cena em que Salvador e Alberto veem televisão depois de fumarem heroína, assistindo a algumas pessoas mergulhadas em uma piscina, em Dor e Glória, os sentimentos só são resolvidos, aprofundados, verdadeiramente sentidos quando Salvador resolve transformá-los em imagens cinematográficas. O mergulho, para Almodóvar, é experienciado através do cinema, que é, desde o início, muito particular e pessoal.

Entretanto, trata-se de um filme que não me instiga como outros de Pedro Almodóvar. Ainda que haja muitos elementos reflexivos e profundos, a execução, por vezes, parte de diálogos forçados e pouco inventivos. É uma obra muito mercadológica, o que não é um problema em si, mas que acaba caindo em certa mesmice, com trilhas sonoras emocionalmente apelativas e uso abusivo de planos e contraplanos. Ao dar play em um filme de Almodóvar, busco um melodrama consciente de si, irônico, no qual a estética rebuscada se mistura com o kitsch. Porém, em Dor e Glória, o kitsch é deixado de lado, o que faz com que o filme seja sério, que fale de coisas sérias. Não acredito que a tentativa pelo cinema sério seja descartável, só que nesse caso ela deixa um sabor de decepção, uma vez que os filmes de Almodóvar não costumam ser tão engessados.