Nós (2019), de Jordan Peele

Através do espelho

Letícia Badan

E seu sussurro característico tornou-se o verdadeiro eco do meu

(Edgar Allan Poe, “William Wilson”)

Em 2017, Jordan Peele lançou seu primeiro longa-metragem, Corra!. A obra, que lhe rendeu o Oscar de melhor roteiro original, possuía claras referências à história do cinema e da literatura fantástica. Como uma espécie de atualização de “Mulheres Perfeitas”, o filme sondava o tema da transmutação corpórea da consciência. E, assim como os maridos da idílica Connecticut do romance de Ira Levin buscavam substituir suas desobedientes esposas por cópias robóticas submissas, Corra! reformulava a trama de ficção científica, trazendo negros como os desejados receptáculos corporais da consciência de idosos brancos da classe média alta norte-americana. Peele tem origem no universo da comédia, mas a energia que atravessa suas produções de suspense e horror mostra a verdadeira mão de autor do cineasta.

Em março de 2019, estreou no cinema seu segundo longa-metragem, Nós. O prólogo ambientado em 1986 desenvolve-se sob a perspectiva de uma garotinha, Adelaide, e sua visita ao parque de diversões Santa Cruz Beach Boardwalk, na noite de seu aniversário. Seu pai conquista, em uma das barracas de jogos, um prêmio escolhido pela primogênita. Uma camiseta de Thriller, de Michael Jackson, que a mãe prontamente censura. A atmosfera noturna, iluminada somente pelas luzes coloridas das atrações infantis, condensa o caráter inquietante da cena. Afastando-se do pai, entretido pelo jogo Wack-a-Mole, Adelaide caminha solitária em direção à praia, observando, com olhar atento, os demais à sua volta. Encontra uma casa de espelhos, de onde pisca um letreiro néon com os dizeres: Encontre Você Mesmo.

No interior do Shaman’s Vision Quest, uma voz masculina (a do próprio diretor) ecoa trechos do Mito da Criação Hopi, em que Taiowa, o criador, congratulando Sotuknang pela concepção dos nove mundos, demanda-lhe agora a gênese da vida. É ali, na labiríntica floresta de vidro, que Adelaide defronta-se com os diversos reflexos de seu próprio ser. Na busca pela saída, depara-se com uma outra imagem de si própria e observa atônita o desvelar sombrio perante seus olhos. A imagem dissimulada não era mais uma de suas réplicas diante do espelho, mas uma garota em carne e osso, mimese macabra de seu próprio eu. Adelaide desaparece por 15 minutos, retornando com um aparente trauma, que a impossibilita de falar ou agir normalmente, como a filha que seus pais antes conheciam.

Quando nos encontramos novamente com a protagonista, já adulta, retornamos também, com seu marido (Gabe) e os dois filhos (Zora e Jason), para a antiga casa de veraneio dos pais de Adelaide. A proximidade com o local desperta nela uma nova inquietação. Algo obscuro, atado a seu passado, parece ainda lhe exercer uma influência muito grande. E que permaneceu adormecido nos confins daquele estranho palacete de espelhos cravado na areia.

Aos poucos, o mundo que conhece, solar e acolhedor, dá espaço a uma realidade soturna, imersa em sombras e na escuridão. A garota que havia encontrado na casa de espelhos volta agora, ela também com uma família formada, decidida a pleitear seu merecido lugar na superfície. Um a um, os membros da família Wilson confrontam-se com seus algozes, e como naquele jogo com o qual seu pai se divertia, devolvem as toupeiras a seus devidos buracos. Assim, Peele insere o tema do duplo de forma inventiva e calamitosa.

Os acorrentados, como identificam os antagonistas, são doppelgängers, presos a um mundo subterrâneo. Possíveis vestígios de experimentos genéticos do governo estadunidense, outrora utilizados numa tentativa de controle da população, descartados por sua inútil serventia. É assim que Red, a sombra de Adelaide, explica sua existência. O homem foi capaz de clonar o corpo humano, mas incapaz de replicar sua alma. Os duplos estavam fadados então a uma vida acorrentada àqueles da superfície, mas o que imperava nesse mundo de sombras era apenas o ódio, por viverem sem o livre-arbítrio. Enquanto as pessoas alimentavam-se de refeições quentes e saborosas, suas sombras devoravam coelhos vivos. Enquanto as crianças brincavam com jogos divertidos, as demais feriam-se com objetos pontiagudos. As toupeiras, são condenadas a vagar os infinitos túneis sem destino que atravessam os Estados Unidos de ponta a ponta sob a sombra das ações de seus similares.

A família de Red reflete o avesso dos familiares de Adelaide. O marido, Abraham, cuja vista – percebemos por Gabe – é prejudicada pela ausência de óculos, segue a esposa tal como o filho de Terá acolitara cegamente a Deus. Pluto, o filho mais novo reflete a bestialidade infantil, com a face deformada pelo fogo, sempre velada por uma máscara. Umbrae, como seu nome indica, abriga a sombra, com a alma maliciosa e doentia, cuja obscuridade se faz visível nas marcas sob os olhos. São espelhos distorcidos de identidades duplicadas.

O filme, brilhante e duplamente protagonizado por Lupita Nyong’o, se concentra em dois momentos específicos da vida da personagem, entre sua infância e vida adulta. E se, em Corra!, Peele explorava as inquietações subversivas ocultadas pela máscara da normalidade social, em Nós o que se tem é o revelar de um universo macabro em que a identidade e a duplicidade mostram-se como os pilares constituintes do terror.

Red percebe que deve guiar os acorrentados em sua busca pelo fim da servidão involuntária. Concebe um plano de ataque baseado em todos aqueles elementos formadores de sua infância. Veste seus iguais como um exército. Macacão vermelho (semelhante ao que o Rei do Pop usara no videoclipe de Thriller), luva de couro em apenas uma das mãos (que lembram as de Michael Jackson, Freddy Krueger e David Kibner), sandálias de tiras nos pés, parelhas àquelas que usara em sua fatídica ida à praia, e tesouras, necessárias para cortar o vínculo entre acorrentados e libertos. E assim,Hands Across America[1], cuja propaganda havia assistido na televisão, torna-se o modelo salvador de sua classe. Unir os Estados Unidos de costa a costa e quebrar os grilhões da alienação, para enfim a dar luz a uma corrente de visibilidade.

Retomando o início do filme, antes da chegada de Addie e sua família ao parque de diversões de Santa Cruz, Peele apresenta uma cena breve, que remete aos momentos aterrorizantes de seu primeiro filme. É a imagem de um televisor, semelhante àquele responsável pela submersão de Chris no temível sunken place, de Corra!. Sob a perspectiva de Adelaide, cujo reflexo vemos na tela do aparelho, ele exibe todos os grandes ícones edificadores de seu cinema. Aqueles cruciais para a formação de seu universo cinematográfico, bem como os educadores fiéis de sua juvenil protagonista, Adelaide. Tudo está ali, explicitamente demarcado. Os filmes: C.H.U.D., Os Eleitos, O Médico Erótico, Os Goonies confirmam seu repertório cultural e preveem, de forma trágica, o ineludível destino da jovem.

Jordan Peele representa os medos e influenciadores de sua geração. A televisão em tubo, com o reflexo de nossa protagonista centralizado e imóvel, as estantes, recheadas com VHS de grandes clássicos da ficção científica e do universo fantástico da década de 80, as reportagens televisivas, o comercial de Hands Across America, todos solidificam os alicerces culturais do cineasta e de todos aqueles, como ele e sua protagonista, membros da Geração X.

A sequência trouxe à mente uma frase de um grande amigo, que durante uma conversa, já longínqua, afirmou: “As TVs eram nossas babás”. De fato, uma verdade inconteste. A TV educou os jovens da Geração X. E se hoje são outros aparelhos eletrônicos e meios de entretenimento – Youtube e as plataformas de streaming, principalmente – que embalam as crianças e adolescentes do novo milênio, nos anos 80 e 90 essa função era o daquela mídia. A TV e a cultura popular sempre tiveram um papel na formação das gerações que cresceram no período, ou parafraseando os versos de “TV Party”, da banda punk Black Flag, “não temos nada melhor para fazer, que assistir à TV e tomar algumas cervejas”.

São inúmeros os filmes que trazem o terror da alienação televisiva como epicentro dos eventos diabólicos. Videodrome (1983), de David Cronenberg, Demons II – Eles Voltaram (1986), de Lamberto Bava, e Shocker – 1000 volts de terror (1989), de Wes Craven, são exemplos claros da disseminação do mal pelo televisor. De forma semelhante, o mundo de Adelaide se mostra condensado no interior daquele aposento residencial de 1986. As referências que absorve, seu conhecimento de mundo, todos partem da cultura pop de sua época. Os valores familiares e a educação maternal indicam vestígios de um passado permanentemente esquecido.

É evidente que seu modelo de mundo é tão frágil quanto ela, flagelada pela dureza daquele espaço nas sombras. O evento de Hands Across America, que reuniu milhares de celebridades, obteve pouco efeito com sua panfletária mensagem de acabar com a fome na África. A crítica social presente na ação comunitária do governo Reagan indicava que a América devia abrir seus olhos para os desabrigados e famintos.  Aqueles cujo sofrimento, como os sem-teto da Nova York de C.H.U.D, só é digno quando observado pela lente do obturador fotográfico, brilhando anonimamente nas paredes das galerias e museus.

A história de Adelaide e seu encontro com Red remetem ao tema do duplo, o qual encontra um caminho fecundo na cultura. Dentre as tantas abordagens sobre o tópico, uma, em particular, parece trazer semelhanças àquela disposta por Peele em Nós. Foi Edgar Allan Poe quem, em 1839, escreveu uma história de veia similar, “William Wilson”, cujo protagonista homônimo porta para além do sobrenome, semelhanças claras com a heroína dúbia encarnada por Lupita Nyong’o.

Desde a infância, no colégio do reverendo Bransby, William percebia ter relações com um outro estudante. Relações essas que extrapolavam os limites da racionalidade humana. Aos poucos, o garoto, que dividia com ele o mesmo nome e data de nascimento, mostra-se cada vez mais parecido consigo próprio. Transformando seus gestos, o andar, e até a fisionomia aos moldes dos seus. Ao passo que se desenvolve na vida adulta, William encontra persistentemente com seu igual, e sempre uma nova mudança aproximava os dois. Apenas um elemento o distinguia de William Wilson. Sua voz não passava de um sussurro, marcado por uma deformidade gutural. A tentativa de tomar o lugar do protagonista, resolve-se na batalha entre ambos. William ataca fatalmente seu perseguidor, que num sopro final de vida, proclama:

Venceste e eu me rendo. Contudo, de agora por diante, tu também estás morto… morto para o Mundo, para o Céu, e para a Esperança! Em mim tu vivias… e, na minha morte, vê por esta imagem, que é a tua própria imagem, quão completamente assassinaste a ti mesmo![i]

Como ele, Red possui o elemento da voz ruidosa. Um traumatismo nas cordas vocais, explicado quando, num flashback da infância, descobrimos que a jovem que encontrara na casa de espelhosestrangula a pequena Addie. A verdadeira garota, cuja história até então acreditávamos acompanhar, é arrastada para os corredores dos acorrentados e abandonada ali, para que sua igual tome ardilosamente o seu lugar. A reviravolta da trama condensa uma série de elementos e referências que explicitam o caráter sempre ambíguo do filme e de seus personagens. Nada reflete um único significado e os aspectos de dualidade se evidenciam sempre na imagem.

Vemos o duplo nas tesouras, unidas por um centro que equilibra as duas metades; nas sombras agigantadas que acompanham os Wilson em sua chegada à praia; na citação bíblica de Jeremias 11:11, reforçadas igualmente nos relógios, na televisão, nas camisetas com o logo de Black Flag. Ou ainda a corrente humana de Hands Across America e o destino que persegue Adelaide até mesmo no adesivo familiar do vidro traseiro do carro.

A todo momento nos são lançadas as pistas de sua real identidade. Mesmo fugindo das correntes mundo de baixo, a protagonista se vê sempre presa a algemas. A cada vítima que assassina, volta às raízes. O aspecto selvagem, caracterizado pelos sons inumamos que balbucia durante os ataques, nos fazem perceber que algo foge da normalidade. E se Red tenta com a tesoura cortar os fios que a unem a Adelaide, esta só conseguirá se soltar usando o elemento constituinte de suas origens, as algemas. Estrangulando, novamente, sua ameaça congênere.

Peele é a nova face de The Twilight Zone, que em 2019 ganhou sua quarta adaptação televisiva. A série original de Rod Serling abordou, em sua primeira temporada, uma trama semelhante, quando, em Mirror Image, fazia Millicent (Vera Miles) duvidar de sua sanidade vendo uma mulher, à sua imagem e semelhança, tomar seu lugar num terminal rodoviário. Ali, sua possível explicação balizava-se na coexistência de planos alternativos de realidade.

A história do cinema fantástico é, portanto, farta na representação dos duplos. Invasion of the Body Snatchers, em suas duas primeiras adaptações para o cinema, caracterizava o medo norte-americano do outro. Em Vampiros de Almas (1956), de Don Siegel, o terror ao comunismo é o que move Miles, em sua alucinada corrida em meio aos carros, proclamando ferozmente “Eles já estão aqui. Você é o próximo!”. Na versão de Phillip Kaufman (1978) o medo, por sua vez, não é externo, mas interior. A quebra dos ideais familiares ganhava força com a Me Generation, conforme fundava-se uma insegurança com o governo Nixon e os escândalos de Watergate vinham à tona. Era essa mesma geração que iria posteriormente, no governo Reagan, retornar aos conformes sociais, cristalizando uma sociedade reacionária.

Peele nos indica que, tal qual Os Invasores de Corpos, os inimigos podem parecer semelhantes a nós.Como Red, que questionada sobre sua identidade, afirma: “nós somos americanos”, e como o título original duplamente elabora, Us abriga também o sentido de U.S (United States). A consciência compartilhada, seja ela por corpos distintos (em Nós) ou no interior de uma única mente (em Corra!), é uma preocupação evidente do cinema de Jordan Peele.

A troca sigilosa de olhares entre Adelaide e seu filho, Jason, ao final do filme, reflete os paradigmas de um mundo em que os limites entre o herói e o vilão não são sempre bem demarcados. Ali, no paralelo dubio da identidade, o outsider encontra seu espaço no mundo. Pouco importa se não conseguem se adequar às normas, se cavam tuneis na praia, ao invés de construir castelos de areia. A normalidade nada mais é que uma máscara. É um grandioso filme, que remarca a tese de que o medo ocupa o reverso do espelho.


[1] Hands Across America foi um projeto do grupo USA for Africa, que em 1985 havia produzido o hit mundialmente conhecido “We Are the World”. O evento ocorreu em 25 de maio de 1986 nos Estados Unidos, reunindo cerca de 6 milhões de pessoas, como o nome sugere, numa corrente humana que pretendia se estender de costa a costa do país.


[i] POE, Edgar Allan. “William Wilson” IN Contos de terror, de mistério e de morte. Tradução: Oscar Mendes. 5ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p. 119