Garota de Ipanema (1967)

 

Garota de Ipanema

O musical esquecido de Leon Hirszman

Beatriz Saldanha

São demais os perigos de se criar uma narrativa tendo como base uma obra que integra fortemente o imaginário popular, ainda mais quando se parte da proposta de desmistificá-la. A música “Garota de Ipanema”, que versa sobre uma adolescente frequentadora do bairro/praia do título, foi composta por Tom Jobim e Vinícius de Moraes em 1962 e logo se tornou uma das canções mais populares do mundo. Dois anos mais tarde, ganhou uma versão em inglês por Astrud Gilberto e Stan Getz, levando o Grammy de melhor gravação daquele ano. Em 1966, ao lado de Eduardo Coutinho, o diretor Leon Hirszman iniciou o processo de dar vida à já folclórica personagem do cancioneiro nacional. Desde meados dos anos 1950, Hirszman era bastante ativo na cena cinéfila, quando desenvolveu atividades cineclubistas na faculdade e, em seguida,entrou para o cinema como assistente de direção, trabalhando ao lado de diretores como Nelson Pereira dos Santos e Paulo César Saraceni. Vindo dos prestigiados curtas-metragens Pedreira de São Diogo (1962) e Maioria Absoluta (1964) e do longa A Falecida (1965), Hirzsman tinha ao seu lado a crítica, que depositava em Garota de Ipanema (1967) a enorme expectativa de que fizesse com que o grande público retornasse às salas de cinema e se tornasse cativo, visto que o número de espectadores era sempre flutuante. À maneira do processo seletivo da protagonista de …E o Vento Levou (1939), a heroína da Guerra Civil americana, Scarlett O’Hara, foram abertas inscrições públicas para a escolha da Garota de Ipanema, uma jovem entre 17 e 18 anos que fosse a cara do Rio de Janeiro. Apesar dos anunciados testes, a moça selecionada para o papel foi a jovem estudante de teatro Márcia Rodrigues (cujo nome foi mantido na personagem), a convite de Liana Aureliano, esposa de Hirszman.

Garoa de Ipanema tem início com filmagens documentais do bairro-título antes da chegada do verão. Trabalhadores a caminho do serviço, crianças na saída da escola e a chuva fazem com que Ipanema pareça apenas mais um bairro no mundo. Mas logo chega o verão e as pessoas começam a ocupar a praia. Corpos bronzeados, jovens dançando, jogando frescobol. Um diretor estrangeiro vê Márcia e se interessa em filmá-la, mas seu noivo controlador (Arduíno Colasanti; em participação especial, Arnaldo Jabor aparece nesta cena como o intérprete do diretor estrangeiro) se opõe, o que a deixa aborrecida. Em seguida, Márcia está na varanda de seu apartamento de classe média alta com vista para o mar estudando para o vestibular na companhia de uma amiga, mas, preocupada, revela-lhe que não está muito certa do futuro. Sai a bossa, entra a fossa. O comportamento de Márcia é dissonante de todo o resto, mas ela continua com sua rotina de bailes e reuniões caseiras. Em seu apartamento, recebe personalidades ilustres como Vinícius de Moraes, Nara Leão e Chico Buarque. Enquanto Nara canta com completa naturalidade, Chico parece absolutamente desconfortável, fazendo jus à fama de tímido e canastrão.

Em seus passeios pela cidade, Márcia reencontra Zeca (José Carlos Marques), um amigo que acabara de voltar de uma temporada em Paris. Cheio de novidades, Zeca diz ter visto “uma exposição de Picasso, a conferência de Sartre sobre o Vietnã, o último filme de Godard e até uma greve geral”. Ela responde com ironia “nós também temos novidades: nomeações de dez novos generais, o Pelé teve uma filha, o território do Amapá vai virar estado…”.Talvez tenha sido esta a maneira que Hirszman encontrou para demonstrar o seu descontentamento com o panorama político e cultural do país, sem também deixar passar eventuais críticas à fatia da sociedade que frequenta aquele bairro (aqui refiro-me à cena da ceia de Natal em que a matrona da família, completamente bêbada, passa mal de desgosto ao ver a neta usando um biquíni. Absolutamente ridícula e divertida).

garota de ipanema 1

Mais festa. Uma porção de músicas concatenadas. A performance de Ronnie Von serve de pano de fundo para uma briga tremenda em que o (agora) ex-noivo de Márcia se envolve e ela acaba conhecendo um fotógrafo (Adriano Reis) por quem se apaixona perdidamente. É Ano Novo e ele propõe construi-la: “Você não sabe quem é. Nem de onde veio, nem pra onde vai. Por isso eu vou te construir. Primeiro o corpo, depois a alma imortal”. Numa das sequências mais interessantes do filme, numa espécie de ensaio fotográfico, Márcia é caracterizada como diversos tipos diferentes de mulher: noiva, dona-de-casa, intelectual, ativista, prostituta, professora, religiosa, militar, guerrilheiraetc. Mas, afinal, quem é Márcia? Mesmo após esse ensaio de descoberta, a menina permanece uma incógnita. Em seguida, há um longo monólogo do fotógrafo, que, em meio à brancura sem fim da areia da praia, evoca um tipo de profeta glauberiano (provavelmente, uma das poucas cenas mantidas do rascunho que Glauber Rocha escrevera para o roteiro). O casal se isola nesse retiro romântico que, de tão estilizado, não se sabe se de fato está acontecendo ou se trata de um devaneio, até que Márcia descobre que o homem dos seus sonhos, na verdade, é casado. Ela decide terminar tudo e, numa cena expressionista, o céu desaba sobre ela.

Acreditava-se que Garota de Ipanema restauraria um modo de produção cinematográfico industrial no Brasil. O filme se pagou, mas não gerou o lucro esperado. A crítica da época dedicou páginas inteiras de textos negativos a esse respeito, questionando a razão pela qual mexeram numa personagem que já estava formada na cabeça do povo, e atestando ter sido, decerto, a intelectualização da Garota que chateou o público, sequioso por alegria, amor e humor. “A abstração, que é a tônica do filme, foi um método extremamente perigoso para um filme com qual o público sonhava em ver”, afirmou o crítico Alberto Shatovsky, do Jornal do Brasil. Outro crítico da mesma publicação,Maurício Gomes Leite, concluiu “Tecnicamente perfeito, é neutro, vazio, anônimo, não ataca nem encampa, não se entrega ao monstro provinciano, nem se revolta contra as cores de um mundo inventado em uma mesa de bar; não forma nem uma análise, nem um protesto”. Diante de tamanha rejeição, a declaração da atriz Márcia Rodrigues, que se refere ao filme com desprezo, dizendo tratar-se de uma obra alienada, e do próprio diretor, que, fazendo mea culpa, admitiu que não deveria ter querido tanto de um projeto só, fazem de Garota de Ipanema um filme triste, o que não significa que seja desprovido de interesse e mereça o oblívio. Pelo contrário: injustamente abandonado,traz marcas hirszmanianas como o interesse pela música e pelo documentário, e merece ser resgatado com urgência.

Fazia parte dos planos de Hirszman não tentar decifrar o indecifrável, como dissera em entrevistas ainda em fase de pré-produção. A garota está contaminada pelo tédio e pelo desânimo pós-golpe de 64, mas não dá sinais de que tomará as rédeas, apenas segue frequentando bailes e a orla da praia. Como a própria bossa nova, ela é um tanto esquizofrênica: se tudo é tão triste, por que a melodia é feliz? O fotógrafo tenta construir a garota: afinal, o que sabemos dela? Quais são suas convicções políticas? Qual o papel dela no mundo, numa sociedade em que a participação do jovem é determinante para a mudança? É estar sempre de passagem, conforme a letra de Vinícius. Ela é o oposto do palpável, etérea, uma imagem que deve ser aproveitada enquanto existe diante dos olhos.

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Bibliografia consultada:

Garota de Ipanema: Um filme sobre o Rio e sua juventude. O Globo, 09/09/1966, Rio de Bairro em Bairro, p. 3.

O  filme em questão: Garota de lpanema. Jornal do Brasil, 31/12/1967 e 01/01/1968, Caderno B, p. 8.

SALEM, Helena. Leon Hirszman: o navegador das estrelas. Ed. Rocco, 1997, p. 171 – 185.

A Falecida (1965)

A falecida 1

Morte como liberdade, vingança como prisão

Flávio C. von Sperling

É sob a chuva feral e o céu fechado que Zulmira vai à cartomante apostar suas fichas no misticismo do baralho. O plano abertíssimo de um prédio descascado, ruína viva (percebe-se alguém aqui e ali habitando suas entranhas), sobre a pequena personagem de Fernanda Montenegro indica sua solitude e seu desamparo. A vidente indica seu demônio: a mulher loira. E aconselha cuidado. Um “meu Deus!” é exclamado pela cliente.

Em conversa no quarto com o esposo Toninho (Ivan Cândido), a conclusão logo vem: a loira é Glorinha, prima e vizinha de Zulmira. Na parede do quarto há apenas dois objetos pendurados, dois símbolos religiosos: uma cruz com o defunto de Jesus e um quadro do Vasco. Na horizontal, o marido fleumático e sonolento, na vertical, Zulmira e suas diatribes contra a prima. Suas tosses, Zulmira asserta, são macumba de Glorinha, ainda que protestante. “Glorinha está cavando a minha sepultura!” Em frente ao espelho, acusa a prima de vestir máscara: beija de boca aberta, mas é falsidade: não vai mais à praia e não veste maiô. Zulmira acorda possuída pelo fantasma invocado frente ao espelho: recusa o convite do marido à praia (“não aprovo mais praia”), jogou fora o maiô. Zulmira é outra, vai batizar-se outra vez, diz. Vai, inclusive, tentar outra igreja, a Teofilista, pelos seus hinos bonitos. Toninho, crente inabalável e fiel, permanece vascaíno.

Frente à estagnação, ao marasmo e à solidão de Zulmira, a morte descortina-se como a única possibilidade de fuga, de leveza e de movimento. Morrer, o ato definitivo de liberdade, é a chama que pode tirá-la da inércia. Zulmira sorve um pouco dela, em uma das cenas mais belas e importantes do filme, ao tomar chuva no quintal dos fundos– o que felizmente piorará seu quadro de saúde. Entrando em casa, Zulmira hesita, olha para a chuva e sai novamente. A câmera, como que ainda a tentar entender o que se passa, a contempla durante algum tempo de dentro da casa. Zulmira sente a chuva que lava o miasma que a envolve, olha para o céu, tira a jaqueta, experimenta a liberdade da morte, toca seus cabelos, toca seus seios, sente um pouco daquilo que está por vir, morre um pouco, arde, goza – La petite mort. A câmera de Dib (o maior câmera-na-mão do nosso cinema) junta-se a Zulmira, dança, ao entorno dela, em movimentos circulares (Ouroboros; ciclo, recriação da vida pela morte).

A falecida 2

Em testilha ferrenha travada dentro de si, Zulmira busca vencer sua nêmesis – Glória, ou a construção que Zulmira faz de Glória. Um de seus triunfos se dá quando a notícia do seio arrancado de Glória chega a Zulmira, que não esconde o sorriso de satisfação. Vale salientar que, além do peito, Glória também não tem voz no filme. O que sabemos dela é sempre intermediado por Zulmira ou por seu ex-amante Pimentel (Paulo Gracindo). A paranoia, desde a suposta macumba até o volume alto do rádio, que Zulmira afirma ser Glória a zombar de sua morte iminente, dá as cartas dessa disputa interna de Zulmira. Glória, ao saber da infidelidade da prima, transforma-se numa espécie de fantasma. “É como se ela estivesse aqui”, diz Zulmira ao amante no parque. É seu fantasma mais íntimo que apaga sua sexualidade, que a condena a uma vida de aflição e agruras que só a morte pode mitigar. Exorcismo. Exorcismo e vingança, pois não basta qualquer morte. Ela há de ter o “enterro mais bonito que já aconteceu no Brasil”. Ela, Zulmira, que, não mutilada, tem o privilégio de poder morrer. Glória, coitada, não pode. Com apenas um seio, hão de zombá-la quando estiver na horizontal. É o enterro mais pomposo que há de consumar esta vingança. “Glorinha vai ficar com uma cara deste tamanho, possessa”.

A vitória de Zulmira está ali, ao alcance. A morte está para bater à porta, e seu ex-amante há de bancar um funeral como nunca houve por aqui, não fosse pela segunda vingança, a de Toninho contra Zulmira, instigada pela infidelidade desta, que vem à luz no encontro com Pimentel. Toninho, antes tão passivo, agora, para o bem ou para o mal, sai da inércia, da apatia. É, de certa forma, salvo pela falecida. Impõe-se, chantageia Pimentel e o tem na mão, em sequência filmada quase que como um showdown de um noir B.

Toninho condena Zulmira a ser sepultada no caixão mais barato, que ainda lhe parece caro demais. A câmera de Dib vai em direção contrária ao cortejo do pobre caixote, para então enquadrar Gloria à janela, plena e impávida. Maldito será Toninho, que nega o último desejo da esposa, que atravanca sua vingança e, consequentemente, impede a completude de seu exorcismo.

A falecida 3

É na religião que Toninho vai buscar a salvação. É sozinho na multidão do Maracanã – sua igreja, na arquibancada – seu confessionário, que tentará expiar seus pecados. O vemos em primeiro plano, penitente, durante algum tempo (talvez até tempo demais). Há algum eco da Falconetti de Dreyer e Maté ali. O instrumental de Luz Negra (regido por Radamés Gnattali, tema de todo o filme, em diferentes arranjos) toma aqui sua feição mais lúgubre. Não sabemos se há salvação para ele. O jogo segue. A câmera finalmente dá licença.

Leon Hirszman e os Itinerários de um Povo [1]

Reinaldo 9

Reinaldo Cardenuto

 

Penso como Antonin Artaud (…).

Há dez mil modos de pertencer à vida

e de lutar pela sua época.

Há dez mil modos de ocupar-se da vida

e de pertencer à sua época.

(Nise da Silveira, durante entrevista realizada por Hirszman em 1986, ao buscarem sua memória uma frase atribuída a Artaud)

 

                I.

Os primeiros passos da trajetória artística de Leon Hirszman ocorreram nos anos imediatamente anteriores ao golpe civil-militar de 1964. Como outros diretores vinculados ao Cinema Novo, em meio às graves polarizações ideológicas que marcaram os anos 1960, de início Hirszman aproximou-se do campo cinematográfico ao apostar que os processos criativos seriam mediações políticas cruciais para a transformação efetiva do mundo. Em um contexto atravessado pela grande confiança nos projetos revolucionários de esquerda, no qual se partilhava a utopia de que a história caminharia rumo à consolidação do socialismo, o cineasta dirigiu seus primeiros filmes em confluência com o idealismo teleológico presente em sua geração. Inspirado na mise-en-scéne de Sergei Eisenstein, sobretudo em diálogo com o estilo encontrado em Encouraçado Potemkin (1925), seu curta de estreia, um drama alegórico de celebração da classe popular, foi realizado com a expectativa de agitar emocionalmente os ânimos dos espectadores, propondo sua convocação urgente à luta política. Na narrativa catártica de Pedreira de São Diogo (1962), na qual é encenado o triunfo dos trabalhadores contra a ganância capitalista, desenha-se um exercício simbólico a representar o povo como portador de um heroísmo capaz de superar estruturas consolidadas de dominação.

Desejando posicionar-se diante das inquietações de seu tempo, face às demandas programáticas da militância marxista, Hirszman iniciou o seu percurso com um filme de engajamento, politicamente positivo, cuja essência encontrava-se na valorização do sujeito histórico considerado agente revolucionário. Ainda que a obra fosse esteticamente vigorosa, capaz de expor o autoritarismo enraizado na sociedade brasileira, seu projeto não se concentrava na investigação mais profunda de nossas contradições, mas, antes, na disposição em fazer do cinema um instrumento ideológico de combate. O mesmo compromisso de luta, acentuadamente didático e militante, ainda prosseguiria vivo no segundo curta-metragem dirigido pelo cineasta. No documentário Maioria Absoluta (1964), cujas filmagens ocorreram meses antes do golpe, o estudo sobre o analfabetismo no sertão nordestino, ponto de partida investigativo, desdobra-se na crítica ao poder oligárquico como causa da miséria camponesa existente no meio rural.

A implantação do regime militar, a partir de abril de 1964, geraria uma fratura irreparável no otimismo que vinha estimulando o engajamento e a prática artística de setores próximos à esquerda. Ao contrário do projeto revolucionário de herança marxista, no revés do processo político que deveria coroar a superação do capitalismo, a realidade histórica brasileira foi tomada de assalto pelo poderio militar e pelo desenvolvimento de uma modernização conservadora encabeçada por alas diversas do empresariado nacional. Para boa parte dos realizadores vinculados ao cinema novo, dentre eles o próprio Hirszman, o abalo na crença idealista, a ruptura com a teleologia da emancipação, provocaria a necessidade de revisar o modo como encaravam as representações do popular no campo artístico. Celebrado heroicamente nos filmes, erigido como monumento épico para a transformação do mundo, o sujeito revolucionário construído nas telas encontrava-se distante daquele povo real, pouco disposto à luta, que observara passivamente a instauração de um Estado autoritário no país. A distância entre o desejo e a sua concretude, antes enevoada pela partilha utópica, escancarava-se agora como questão problemática e incontornável. Foi justamente nesse contexto de crise, face aos muitos dissabores políticos, que Hirszman realizaria o seu primeiro longa-metragem, A Falecida (1965).

Adaptação da peça homônima escrita pelo dramaturgo Nelson Rodrigues em 1953, A Falecida pode ser considerado um importante ponto de inflexão no processo criativo que o jovem Hirszman vinha construindo há alguns anos. Absorvendo as críticas dirigidas naquele momento à produção cinemanovista, sobretudo em torno dos excessos de positivação ideológica, em seu novo filme, o cineasta procuraria exercitar um deslocamento em relação às tendências presentes na arte de militância instrumental, afastando-se do estilo programático que adotara como princípio ativo de suas obras anteriores. Sem abdicar do fazer artístico como lugar de essência política, espaço privilegiado para a exposição crítica das estruturas dominantes de poder, Hirszman assumiria a partir de A Falecida um realismo de observação acurada sobre as profundas contradições existentes na sociedade brasileira. Embora o seu filme possuísse pontos de convergência com o que vinha realizando até então, a exemplo de um olhar documentarizante lançado à vida e à cultura do povo, os novos tempos pareciam convocar à produção de um cinema capaz de evidenciar as fraturas sociais enfrentada sem um país acentuadamente autoritário. Propondo-se à releitura de um texto de origem teatral, Hirszman manteria firme o seu compromisso criativo com a classe popular, dessa vez compondo uma espécie de inventário sócio-existencial em torno de personagens habitantes do subúrbio carioca.

Reinaldo 2

Na versão fílmica de A Falecida, a obsessão da protagonista Zulmira pela morte, que a leva a programar com antecedência e em detalhes o próprio enterro, não provém exclusivamente de angústias referentes à dimensão subjetiva. Habitando um universo patriarcal que valoriza a submissão e o decoro feminino, mundo conservador no qual a posse material é encarada como sinônimo de consagração, Zulmira é uma figura dramática em frangalhos. Sob o peso desse código de conduta, incapaz de se ajustar efetivamente às demandas sociais de seu entorno, ela vive um dilaceramento sem retorno. A sua inadaptação, ao invés de lhe conceder forças de ruptura, resulta em sentimentos de culpa, inveja e rancor. Cindida entre ser um corpo livre e corresponder à imagem moral que lhe exigem, não alcançando a plenitude em nenhuma das duas esferas, a personagem enlouquece. Suas ações desiguais, como trair o marido e discursar a favor do recato, aderir à fé anti-materialista e valorizar uma ética do dinheiro, são consequências do abismo social e psicológico em que se encontra. Para Zulmira, a morte surge como possível solução do paradoxo existencial: não apenas a fuga definitiva de sua condição, mas também a expectativa de conseguir um enterro luxuoso, repleto de pompas, cujo efeito seria convencer os outros da perfeição conservadora que efetivamente nunca alcançou. Em A Falecida, Hirszman traz à tona um popular refém do tumulto sem fim, entregue às contradições resultantes da cultura autoritária difundida no Brasil. No contexto do regime militar, o cineasta faz ver, a partir de um realismo sócio-psicológico, aquilo que deforma a potência política transformadora do povo.

Anos após dirigir esse filme, em um cenário histórico de ampliação da violência ditatorial, Hirszman voltaria à investigação do popular socialmente corrompido no longa-metragem S. Bernardo (1972). Adaptação do romance homônimo escrito por Graciliano Ramos em 1934, o longa-metragem narra a trajetória alquebrada do personagem Paulo Honório, homem de extração popular que se transformou em um poderoso coronel alagoano. Por anos subjugado graças às suas origens sociais, sofrendo agressões contínuas em um universo patriarcal autoritário, o protagonista do filme é um sujeito astuto que converteu suas experiências existenciais não em revolta contra o estado das coisas, mas em estratégia mesquinha com o fim de ascender à condição de elite rural. As duras provações enfrentadas por Paulo Honório, ao invés de resultarem em projeto político de aversão ao coronelismo, são lições de vida que dotam o personagem de uma couraça sentimental impenetrável, lições que ele transformou em aprendizado para tornar-se tão opressor quanto aqueles que o exploraram no decorrer da infância e da juventude. Popular cooptado, reprodutor feroz das violências sofridas no campo, o personagem incorpora como corretos os valores patrimoniais que o cercam, naturalizando como verdade a noção de que o mundo deve submeter-se aos desejos daqueles que detêm domínio político e posses materiais. Em meio a um cenário histórico de aniquilamento dos projetos libertários de esquerda, no qual o regime militar sustentava-se no poder assassinando opositores e aquietando insatisfações a partir do acesso cada vez maior ao consumo de bens, Hirszman consolida em S. Bernardo uma exposição crítica das estruturas responsáveis por deturpar forças de contestação do povo, levando-o a multiplicar ações conservadoras de ordem autoritária.

Paulo Honório, como figura dramática típica, representa uma das dimensões mais cruéis da tragédia social brasileira: a sua aposta cega na cultura patrimonial, que o dotou de grande fé no capital econômico, faz com que monetarize todas as relações com as pessoas, acreditando que o dinheiro pode lhe garantir status e a servidão de funcionários, amigos, familiares e herdeiros. Para ele, a interação com o mundo se dá pela mercantilização completa dos outros. Incapaz de submeter à própria esposa nessa lógica perversa, uma vez que Madalena é um espírito livre e de formação intelectual humanista, Paulo Honório reage com ciúmes devastador. A revolta da companheira contra o autoritarismo do marido, transformada em melancolia diante da impossibilidade de fazê-lo mudar, gera no protagonista não um sentimento de solidariedade ou de autocrítica, mas sim a obsessão de que a esposa o estaria traindo, como se outro homem fosse roubar aquilo que considera sua posse exclusiva e de direito. O ciúme que manifesta contra essa mulher que pouco conhece, com quem pouco trocou afetos, resulta principalmente do receio de perder para alguém um de seus objetos, de mostrar-se fraco nesse universo patriarcal em que a valorização dos homens é mediada pela conquista de posses e pelo sucesso material. Nem o suicídio de Madalena, incapaz de suportar sua situação, mudará a visão de mundo do personagem.

Reinaldo 3

Após todo o ocorrido, assombrado pela morte da esposa, Paulo Honório lança-se a um processo íntimo de escrita e de autodescoberta. Ao redigir solitário as suas memórias, fazendo um grande balanço sentimental de sua vida, ele adquire a clareza do mal que representa, a lucidez da própria crueldade, admitindo ao mesmo tempo a impossibilidade de abandonar os valores mesquinhos e tortos que no fundo o sustentam como ser. Em convergência com certa dramaturgia brechtiana, a exemplo daquela contida na peça Santa Joana dos Matadouros (1929), as autorreflexões do personagem resultam não apenas no aprendizado agônico sobre o seu lugar opressivo no mundo, mas também na exposição crítica do modo autoritário de funcionamento do coronelismo brasileiro. Enquanto outras produções cinematográficas do período, face aos tempos ditatoriais, propuseram balanços feitos por personagens despedaçados em seu idealismo de esquerda, caso de Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967) e O Bravo Guerreiro (Gustavo Dahl, 1968), no filme S. Bernardo a narrativa ficcional em primeira pessoa é deslocada para as confidências do opressor, evidenciando profundas contradições e perversidades relacionadas à corrupção ideológica da classe popular.

Entre 1963 e 1972, além das obras citadas nos parágrafos anteriores, Hirszman também realizaria outros dois filmes a tratar de fraturas sociais esgarçadas durante o regime militar. O primeiro deles, exceção na trajetória do cineasta por desligar-se das representações em torno do popular, foi o longa-metragem Garota de Ipanema (1967). Nessa “obra de aprendizagem”, tomando de empréstimo um conceito que se consagrou no romance literário, a narrativa se concentra na jornada iniciática de Márcia, uma jovem pertencente à classe alta carioca. Em forte desajuste com o universo burguês, em tensão acirrada com os valores de sua classe de origem, a protagonista do filme é uma mulher melancólica, cuja crise não provém apenas de desencontros amorosos, mas, sobretudo, de um mal-estar associado à visão ideológica que a cerca. Em descompasso crescente com o conservadorismo e com a vida mundana da burguesia, que lhe soam cada vez mais insuficientes diante das complexidades e das dores do mundo, Márcia busca projetos que deem sentido ao seu percurso existencial. Como os personagens de A Falecida e S. Bernardo, ela enfrenta profundas inaptidões em relação ao seu lugar social. Já o segundo filme,mais excepcional ainda na cinematografia de Hirszman, foi o curta Sexta-feira da Paixão, Sábado de Aleluia (1969). Única guinada experimental do cineasta, parte do longa-metragem América do Sexo, a obra é um breve flerte com o cinema underground, uma performance em torno da incomunicabilidade em tempos de crise.

                II.

Em meados dos anos 1970, o processo criativo de Hirszman viveria um segundo ponto importante de inflexão. Após dirigir um conjunto de obras que colocaram em primeiro plano as fraturas do mundo, priorizando personagens despedaçados face às contradições e às tragédias sociais brasileiras, o cineasta retornaria à disposição em encontrar no povo um sujeito histórico crucial para o engajamento político. Como o próprio Hirszman declararia em diversas oportunidades, a exemplo de um debate realizado na Universidade de São Paulo (USP) em novembro de 1973, a retomada das representações potencializadas do popular, para ele fundamentais em um contexto no qual se lutava contra a ditadura, deveria acontecer de um modo distante daquela positividade exercitada pelo Cinema Novo antes do golpe de 1964[2]. Embora não fizesse sentido monumentalizar o povo como outrora, dotando-o de uma falsa militância heroica, tampouco era preciso abandoná-lo como agente social de transformação, uma vez que se anunciava decisiva a sua participação na resistência à ditadura. Condizente com suas preferências ideológicas, com sua proximidade ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde a década de 1950, Hirszman não abdicaria da aposta política nesse personagem, revisando seu idealismo de juventude para retomá-lo como deflagrador de engajamentos. Logo após dirigir dois curtas-metragens educativos em torno de problemas sociais relacionados ao avanço do capitalismo, Ecologia (1973) e Megalopolis (1973), ele reassumiria uma disposição à militância na obra Que País é Este? (1977).

Hoje um documentário desaparecido, produzido originalmente sob encomenda da emissora italiana RAI, Que País é Este? marcou o primeiro ato de inserção efetiva do cineasta nas campanhas pelo retorno do Brasil à democracia. Composto principalmente por entrevistas com intelectuais que atuavam na oposição à ditadura, dentre eles Alfredo Bosi, Fernando Henrique Cardoso e Maria da Conceição Tavares, o filme propunha-se a recontar a trajetória problemática da nação brasileira, do Descobrimento até os anos 1970, concentrando-se na exposição crítica do autoritarismo sempre presente em nossa constituição histórica. Intercalando os depoimentos com imagens de arquivo, sobretudo obras do Cinema Novo e de autores vinculados ao Teatro de Arena, o documentário procurava evidenciar que uma das marcas do nosso passado foram os ciclos ininterruptos de violência, o constante massacre promovido pelas classes dominantes contra rebeliões e projetos libertários de origem popular. A grande aposta do filme, no entanto, é que esse processo repetitivo de brutalidade, a incluir o próprio regime militar, poderia encontrar seu fim caso uma ampla frente política, formada por diversos setores da sociedade civil, se unisse em prol da redemocratização do país. O aprendizado sobre o tempo pretérito evitaria, no presente, a continuidade das heranças autoritárias. E o povo, núcleo produtor de rebeliões, assumiria nesse ato de ruptura um protagonismo histórico.

Reinaldo 4

As ideias contidas em Que País é Este? acentuadamente militantes, ganhariam maior efervescência no documentário que Hirszman filmaria dois anos depois, intitulado ABC da Greve (1979-90). Montado em 1980, mas finalizado somente após a morte do cineasta, o longa-metragem acompanha, sobretudo a partir de um estilo observacional, o percurso da grande paralisação metalúrgica que ocorreu entre março e maio de 1979 na região do ABC paulista. Para um realizador como Hirszman, cujo pensamento filosófico fundou-se em tradições marxistas de luta, o ressurgimento de um operariado combatido durante a vigência do regime militar, em um cenário de questionamento cada vez maior ao Estado ditatorial, foi encarado como expectativa de que novos tempos talvez estivessem às vésperas de surgir. Identificando nesse novo sindicalismo um retorno à potência questionadora do popular, realinhando-se à perspectiva de que seu processo criativo poderia contribuir para a dimensão política em curso, o cineasta lançou-se à realização de ABC da Greve com o objetivo de construir uma memória em torno da sublevação metalúrgica. Embora não caia na armadilha de positivar em excesso os operários liderados por Lula, incluindo em seu tecido narrativo as intensas disputas internas do sindicalismo de base, o documentário acabaria marcando, na maturidade artística de Hirszman, um reencontro com posturas vinculadas ao cinema de engajamento.

Em ABC da Greve, é a luta de classes que irrompe como leitura da situação histórica brasileira. Para além de observar em minúcias a resistência e a solidariedade da classe popular, sugerindo a sua aproximação com setores mais amplos da sociedade civil, o longa-metragem se ocupa em denunciar as estruturas de poder por trás da ditadura e da exploração promovida pelo empresariado.Ao filmar o inimigo e destrinchar o seu modus operandi conservador, demonstrando os vínculos espúrios entre dirigentes industriais, meios de comunicação de massa e regime militar, mais uma vez Hirszman organiza seu fazer criativo como percepção crítica do autoritarismo que nos rodeia. Nessa obra singular, pois até então o cinema brasileiro havia se voltado pouco à investigação detalhada da classe dominante, a militância não se encontra somente nas possíveis apostas políticas vinculadas à mobilização operária, mas também na exposição das poderosas ferramentas de dominação utilizadas pelo inimigo para manter-se no poder. ABC da Greve é um filme de registro da história imediata, das tensões ainda não resolvidas, cuja força é evidenciar as disputas pelo campo político entre setores sociais radicalmente distintos.

A reposição do popular como potência política, fator determinante no cinema produzido por Hirszman em torno da redemocratização, alcançaria grande intensidade no filme que o cineasta dirigiu meses após as filmagens da greve ocorrida na região do ABC.Retomando um aspecto habitual de seu processo criativo, o longa-metragem Eles Não Usam Black-tie (1981) surgiu na trajetória do realizador como mais um projeto de adaptação cinematográfica, dessa vez de transposição fílmica da peça homônima escrita por Gianfrancesco Guarnieri no ano de 1956. Montada pela primeira vez em 1958, no palco do Teatro de Arena que adotava um viés dramatúrgico de engajamento, a versão teatral de Black-tie foi composta em um contexto anterior ao golpe civil-militar de 1964, em um período no qual a esquerda artística encontrava-se impregnada por fortes crenças vinculadas à utopia revolucionária. Encenada em meio ao otimismo ideológico que marcou a segunda metade da década de 1950, à aposta de que o campo cultural poderia estimular o compromisso do público com uma práxis efetiva de transformação, a peça de Guarnieri foi originalmente realizada em convergência com o espírito criativo que enxergava na arte um “instrumento” de intervenção capaz de agir sobre os rumos da sociedade brasileira.

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De modo parecido com Pedreira de São Diogo, primeiro curta-metragem dirigido por Hirszman, o Black-tie teatral propunha uma narrativa a representar o povo com traços heroicos, como sujeito histórico dotado de uma positividade revolucionária. Por meio de um enredo acessível ao espectador, composto para envolvê-lo emocionalmente com personagens de extração popular, a trama da peça se desenvolve em torno de confrontos ideológicos e afetivos envolvendo dois integrantes de um mesmo núcleo familiar. De um lado o velho Otávio, líder sindical que vê na militância coletiva a essência do viver; do outro o jovem Tião, que acredita na ascensão individualista de classe como solução para seus dilemas.O descompasso entre os dois, agravado a partir do momento em que Tião boicota uma paralisação com receio de perder o emprego, explode no terceiro ato da peça como cisão incontornável: Otávio expulsa de casa o filho fura-greve, que visto com maus olhos pela vizinhança é obrigado a exilar-se de sua comunidade.Como resultado do entrechoque entre as duas ideologias, da ruptura entre as duas visões antagônicas de mundo, Otávio será celebrado na peça como agente de transformação, como personagem positivo que concentra um saber comunista a sacrificar a vida pessoal em defesa de um possível projeto de emancipação.

Ao retomar uma narrativa teatral escrita há tempos, deslocando-a em direção ao início da década de 1980, Hirszman tinha a consciência de que precisaria realizar mudanças no texto original, ajustes que permitiriam atualizá-lo para um cenário de supressão democrática decorrente do regime militar. Após anos de violência ditatorial,diante da ampliação das tragédias sociais e do colapso dos projetos utópicos de esquerda, não haveria como reacender as dimensões românticas contidas na peça de 1956. A partir do aprendizado adquirido durante as filmagens do documentário ABC da greve, nas quais travou contato com as novas e intensas disputas do campo político, Hirszman sabia da impossibilidade de resgatar o antigo sentimento de onipotência ideológica, de realinhar-se com uma crença teleológica cujo anseio era tomar posse da história e conduzi-la rumo a uma modernização de ordem socialista. Adaptar Black-tie para o ano de 1981, mesmo que preservando a sua essência realista e melodramática de ampla comunicação com o público, exigiria do cineasta uma revisão crucial da peça, desligando-a de um idealismo ultrapassado eincapaz de expor as contradições mais profundas da sociedade brasileira. Embora houvesse por parte de Hirszman o desejo de inserir em seu filme o popular como personagem central na luta em prol da redemocratização, representando-o como figura política necessária para a superação definitiva da ditadura, tal investimento simbólico deveria ser realizado com grande cuidado, evitando-se a reprodução de positivações incoerentes com as complexidades sociais do mundo.

Preocupado com esses ajustes históricos, contando com o próprio Guarnieri como parceiro criativo na realização do filme, Hirszman lançou-se à atualização de Black-tie. Afastando-se dos excessos contidos na peça, na qual desenha-se o triunfo político da classe popular, o longa-metragem de 1981, às voltas com a tragédia decorrente do regime militar, instala a morte como dado sensível para a leitura do Brasil. Diferente do texto original, em que o enredo é permeado sobretudo pela vitalidade comunitária, o filme procura expor as angústias resultantes da condição autoritária vivida desde 1964.No longa-metragem dirigido por Hirszman, uma das primeiras obras do cinema brasileiro a propor um balanço sobre os terríveis anos da ditadura, a encenação de três assassinatos, inexistentes na peça de 1956, traça um panorama crítico do país que adentrava os anos 1980 carregando o pesado trauma do fechamento democrático. O fuzilamento de um menor de idade pela polícia, a morte gratuita do pai da personagem Maria e o assassinato a sangue frio do operário Bráulio, alvejado por um policial a paisana, tornam-se no filme indícios da tragédia brasileira, da circularidade de um horror decorrente da ampliação do banditismo e da violência de Estado. Em comparação à peça, pulsante de vida e de confiança na emancipação futura, o longa-metragem expõe as perversidades sociais, as angústias enfrentadas pelo popular em um cenário de amplo esgotamento. O próprio movimento operário, que no texto original de Guarnieri é tratado como força una e revolucionária, capaz de realizar uma greve vitoriosa, aparece no longa-metragem fragmentado, em disputas pela hegemonia do sindicalismo, dividido entre assumir confrontos radicais contra o patronato ou esperar pacienciosamente por um momento mais oportuno de ação.

Reinaldo 6

A despeito de todo o revisionismo proposto por Hirszman, perceptível em um filme a exibir fraturas do país e dissonâncias internas ao movimento operário, é importante ressaltar que o Black-tie cinematográfico está longe de conter uma visão ideológica negativista da militância popular. Se o longa-metragem, em seu realismo crítico de forte envergadura sentimental, concentra-se na exposição crítica de nossos esgotamentos, assumindo como pacto artístico a denúncia da situação vivida pelo Brasil, tal investimento criativo não resulta em ceticismo diante das possibilidades de luta existentes no contexto histórico da época. No caso do filme Black-tie, evidenciar o luto da nação, a tristeza esgarçada em meio ao período ditatorial, torna-se uma partilha das angústias, uma forma de encarar as dificuldades do presente com o objetivo de reposicionar o povo como sujeito crucial para concretizar demandas democráticas dos novos tempos. Ainda que a greve encenada no interior da obra fílmica saia derrotada, e que o cineasta construa duras críticas ao setor operário considerado violento e insurrecional, o longa-metragem não anuncia desistências, procurando extrair dos tropeços a emergência de um popular renovado, de um engajamento de massas que prepararia adequadamente as bases para a oposição organizada e institucional contra as classes dirigentes. Na adaptação cinematográfica de Black-tie, recusar o romantismo revolucionário que havia na peça de Guarnieri, retirar do jogo a antiga onipotência utópica, não significava desistir das apostas políticas. Pela última vez em sua trajetória artística, Hirszman representaria o povo como potência de luta, como potência de superação do luto. Não uma dimensão falsamente heroica, como havia feito na juventude, mas uma dimensão vigorosa que não deixaria de expor contradições e de insistir em certos traços idealistas. No Black-tie fílmico, para além de denunciar crises, Hirszman apresentaria seus anseios em relação ao futuro.

                III.

No cinema de Hirszman, o pacto criativo com a classe popular não pode ser pensado exclusivamente pela disposição do cineasta à arte de militância ou às leituras do mundo a partir de um viés filosófico marxista. Ainda que a dimensão política encontre-se presente na obra integral de Hirszman, voltando-se em certos momentos para análises totalizantes do Brasil, alguns filmes realizados por ele, em pontos distintos de sua trajetória, deslocaram-se rumo a uma apreciação mais “culturalista” das manifestações artísticas originárias do povo. Sem nunca abdicar do comentário ideológico, mesmo que fosse para inseri-lo nas bordas do tecido fílmico, o cineasta produziu uma série de obras dedicadas principalmente à observação poética do cancioneiro popular. Para ele, cuja formação intelectual deveu muito ao romance social modernista, o samba de raiz foi uma das manifestações mais autênticas da cultura brasileira. No decorrer de sua vida, Hirszman dedicou um apreço especial a essa musicalidade: nos anos 1960 esteve envolvido com a esquerda que valorizou os compositores do morro, fez do samba uma escolha sonora para a maioria de seus filmes e dirigiu documentários a retratar figuras centrais na história desse gênero.

Se o samba tornou-se fundamental no processo criativo do cineasta, a ponto de ganhar enorme relevo no conjunto de sua produção, isso não se deveu unicamente ao lado estético da canção, mas sobretudo porque o artista a encarava como manifestação essencial de um sentimento comunitário. Assumido por Hirszman como voz criativa do povo, cuja performance realiza-se na dimensão pública, esse gênero musical apareceu em sua obra como tradução das angústias e dos desejos coletivos existentes em uma urbanidade localizada nos espaços da periferia e das favelas. No documentário Nelson Cavaquinho (1969), belíssimo perfil desse gigante do nosso cancioneiro, a melancolia presente nas composições do sambista, espelho de um sentimento popular, adquire maior poesia quando o filme, deixando de lado os momentos de entrevista, mescla a escuta de suas músicas com alivre contemplação do cotidiano encontrado no subúrbio carioca. Já em Partido Alto (1976-82), o raríssimo registro das rodas de terreiro com Candeia, Manacéa ou Wilson Moreira, todos compositores da velha guarda carioca, é complementado por uma fala proferida por Paulinho da Viola, um discurso entre o lamento e a exaltação, cujo conteúdo critica a cooptação do samba pelo grande espetáculo comercial, mas salienta a sua resistência comunitária como reflexo das “verdades sentidas na alma de cada um”. Se tais filmes atribuem um valor político à musicalidade originária do popular, este se localiza justamente na dimensão cultural que busca preservar os vínculos comunais daqueles que foram historicamente marginalizados. No cinema de Hirszman, a arte do povo é, também, seu exercício coletivo de resistência.

Reinaldo 7

Uma abordagem parecida com essa, na chave “culturalista” aqui anunciada, também se encontra presente nos curtas-metragens que o cineasta realizou entre 1974 e 1976 para o Ministério da Educação e da Cultura (MEC). A série Cantos de Trabalho, composta por uma trilogia de documentários produzidos em cidades interioranas de Alagoas e Bahia, concentra-se na observação de camponeses que entoam canções ancestrais enquanto cooperam na construção de uma casa ou no plantio de cacau e cana-de-açúcar. Nesse conjunto de filmes, mais do que em outros citados no decorrer deste ensaio, Hirszman parecia disposto a se aproximar de heranças “antropológicas” ligadas a autores como Câmara Cascudo e Mário de Andrade, para quem o trabalho intelectual era estimulado, em boa medida, pelo registro de matrizes culturais formadoras da identidade brasileira. Lembrando algumas obras produzidas pela Caravana Farkas na década de 1960 ou por Humberto Mauro enquanto atuou no Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), os Cantos de Trabalho têm como ponto de partida uma concepção etnográfica de filmagem, com uma câmera que pouco intervém na cena, a partir da qual Hirszman salienta que o cântico camponês de raiz, uma das expressões mais significativas da oralidade popular, enfrenta o risco constante do desaparecimento. A narração conduzida pelo poeta Ferreira Gullar nos filmes dedicados ao cultivo do cacau e da cana-de-açúcar, voz que o cineasta também utilizou em outros de seus documentários, alerta para a urgência de se defender um patrimônio ameaçado de extinção face aos avanços da modernização conservadora. Tal qual faria com o samba, no sentido de percebê-lo componente socioculturalcoletivo, Hirszman realiza Cantos de Trabalho com o intuito de construir uma memória em torno da musicalidade rural do povo, dos valores comunitários que ainda lhe restavam, deslocando a dimensão política para o registro daquilo que deve resistir. Como em Que País É Este?, olhar para a cultura popular, para a musicalidade ancestral, é encontrar a tradução dos lamentos de um povo massacrado historicamente, mas também a força motriz de solidariedade e de sobrevivência criativa dos marginalizados[3].

Os últimos filmes realizados por Hirszman, exibidos em circuito comercial pouco antes de sua morte em 1987, também fazem parte desse singular itinerário de apreciação dos atos criativos originários do povo. Trilogia composta por três documentários dirigidos entre 1983 e 1986, Imagens do Inconsciente tornou-se uma obra marcante na trajetória do cineasta não somente por ser o ato derradeiro de uma filmografia atravessada pelo pacto artístico e orgânico com a classe popular, mas também por conter um breve desvio de Hirszman rumo à investigação sobre as complexas dimensões da subjetividade humana. Dono de um fazer cinematográfico mediado principalmente por leituras sociopolíticas de mundo, no qual se acentua um componente materialista histórico de abordagem do homem e dos fenômenos sociais que o cercam, o cineasta operou um deslocamento significativo em sua última série de trabalhos, uma abertura filosófica aos mistérios advindos das manifestações criativas do inconsciente. Realizados em parceria com a doutora Nise da Silveira, psiquiatra que revolucionou os tratamentos da esquizofrenia ao defender a terapia ocupacional em substituição aos métodos violentos do eletrochoque, do entorpecimento químico e da lobotomia, os documentários retratam os casos clínicos de três pacientes do Centro Psiquiátrico Pedro II, todos de origem popular, que encontraram na criação artística uma expressão de seus dilaceramentos internos e um suporte para a melhoria de suas condições mentais.

Embora os filmes não abram mão do comentário político, pois introduzem discursos de oposição às agressões da psiquiatria tradicional, eles se concentram especialmente nos percursos biográficos desses três personagens, na narrativa que vai da irrupção da psicose aos efeitos da terapia ocupacional, apresentando para o deleite do nosso olhar os inúmeros objetos artísticos que criaram no decorrer de seus tratamentos. A cada obra que os documentários descortinam, a partir de uma seleção criteriosa feita por Nise da Silveira, não está em jogo apenas a revelação do mundo interior em suas complexidades e abismos, mas também a força e a beleza de formas estéticas criadas por homens e mulheres sem qualquer formação técnica no campo artístico. As imagens que emergem do inconsciente, imagens que a psiquiatra utilizou na busca pela cura específica dos esquizofrênicos, universalizam-se como manifestação ampla das angústias e desejos que perpassam a difícil condição da existência. Ver tais obras, enxergar-se no que elas exprimem, é um exercício potente de reconhecimento. Em se tratando do filme Em Busca do Espaço Cotidiano, dedicado a Fernando Diniz, mulato e filho de uma costureira nordestina, a pintura realiza-se como esforço exaustivo de ordenação em meio ao caos subjetivo, como luta constante para encontrar uma possível reintegração nas dinâmicas da sociedade.

Imagens do inconsciente - Fernando

Já em No Reino das Mães, os desenhos de Adelina Gomes, filha de camponeses, revelam uma feminilidade fraturada, resultado de um ego frágil que não pôde suportar as duras pressões sociais impostas corriqueiramente à vida das mulheres. E no caso de A Barca do Sol, a obra de Carlos Pertuis, ex-sapateiro, manifesta visões religiosas e profecias cosmogônicas, uma busca incessante pelo absoluto em meio à desordenação do mundo social. Na série Imagens do Inconsciente, o processo criativo desses personagens, pinturas que foram seus mecanismos particulares de defesa, irrompe como artesanato vital do povo, tradução de sentimentos também relacionados a uma realidade conservadora que aprisiona a loucura em verdadeiros campos químicos de concentração. Em seu último ato fílmico, mantendo-se firme no pacto artístico com a classe popular, Hirszman proporciona a apreciação das maravilhas tumultuadas da subjetividade. Muitos anos depois, em complemento a esse magnífico trabalho, Eduardo Escorel montaria uma entrevista inédita que o cineasta havia feito com Nise da Silveira em abril de 1986, originando um novo longa-metragem intitulado Posfácio (2014).

Entre militâncias e investigações do contraditório, entre personagens despedaçados e lutas pela democracia, apreciações artísticas e mergulhos no inconsciente, Hirszman compôs com sua cinematografia ricos itinerários relacionados à classe popular. Como tradução das múltiplas inquietações de um tempo, principalmente do período atravessado pelo regime militar, a sua obra encontrou na relação ontológica com o povo uma grande potência estética e criativa, um fundamento filosófico existencial que fez emergir aguçadas leituras sobre as dimensões políticas e culturais da sociedade brasileira. Atrelada a temporalidades específicas, respondendo a demandas urgentes do contexto histórico entre os anos 1960 e 1980, a filmografia de Hirszman, no entanto, está longe de configurar-se como manifestação artística aprisionada no passado, como obra exilada em questões pretéritas que não reverberam na atual situação vivida pelo país. Os filmes realizados pelo cineasta, a despeito das décadas de distância, encontram em 2017uma atualidade surpreendente.

Nos dias contemporâneos, ao se entrar em contato com o cinema mais politizado de Hirszman, enunciador crítico dos autoritarismos presentes em nossa formação societária, parece difícil esquivar-se de um sentimento melancólico de exaustão. Diante de um sistema democrático frágil e contaminado por interesses econômicos, que desde 1985 demonstra-se incapaz de superar contradições históricas e mantém no poder uma classe política majoritariamente corrupta,os questionamentos levantados pelo cineasta continuam firmes enquanto exposição das fraturas sociais que ainda permanecem vivas, distantes de qualquer resolução concreta. A confiança muitas vezes manifestada pelo realizador na mobilização militante do povo, seja em seus filmes de juventude ou naqueles produzidos em torno da redemocratização, hoje surge para nós bastante enfraquecida, um elo orgânico que desejaríamos reatar, mas que se desgasta ainda mais face à ampla dificuldade de enfrentar as novas guinadas do conservadorismo.As leituras que Hirszman construiu em torno do Brasil, a demonstrar o pesado fardo de sua constituição elitista, prosseguem vivas como análises necessárias para a compreensão de um país que nunca rompeu efetivamente com suas heranças autoritárias.

Seria um equívoco, entretanto, pensar que a cinematografia de Hirszman permanece inquietante apenas pelo mal-estar provocado diante do politicamente irresolvido. Sobretudo nas obras em que o cineasta dedicou-se à apreciação das artes de origem popular, à musicalidade como expressão coletiva ou às manifestações do inconsciente, parece residir uma potência criativa que não deve ser ignorada diante da situação tumultuada do contemporâneo. Ainda que desses filmes também emerjam sentimentos de perda, seja pela diluição crescente dos vínculos comunitários ou pelo uso generalizado de psicotrópicos no tempo presente, há neles uma dimensão pulsante a relembrar o quanto uma parcela do campo artístico, em suas energias criadoras, sempre existirá como resistência poética às desordens do mundo. No cinema de Hirszman, a exposição das tragédias sociais convive com uma aposta rediviva na arte do povo como componente libertário, fraterno e comunal. Em sua obra, é possível encontrar um exercício de sobrevivência: às sombras do mundo, expressam-se luminosidades artísticas. Hirszman parece deixar, como um de seus legados, a sugestão de que não se deve temer certo viés romântico atrelado ao processo de criação, um romantismo crucial por fazer caminhar os desejos de ruptura e de felicidade, mesmo que estes se mostrem impossíveis de consolidar. Se o inimigo ataca com a financeirização de tudo, monetarizando friamente as relações sociais, uma forma política de resistir, de manter-se em pé, reside na insistência poética. Aí jaz uma possível herança do cineasta, para além das leituras ainda atuais sobre o Brasil autoritário e suas fraturas: fazer política de luta é fazer poesia, insistir na poesia é insistir na contestação. Apreciar efetivamente o cinema de Hirszman é não se esquivar do idealismo que ele contém, um idealismo que nunca se manifesta ingênuo a ponto de ocultar o poço sem fim das nossas contradições.

Pedreira 2

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[1] Parte das ideias contidas neste ensaio foram desenvolvidas em minha tese de doutorado, defendida em 2014 na Escola de Comunicação e Artes da USP. Intitulada O cinema político de Leon Hirszman (1976-81): engajamento e resistência durante o regime militar brasileiro, a pesquisa encontra-se acessível a partir do link http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27161/tde-02022015-160846/pt-br.php.

[2] Esse encontro ocorrido na USP, com participação de Hirszman, nunca foi publicado. A fita cassete contendo a conversa pode ser consultada no Arquivo Edgard Leuenroth/IFCH/Unicamp, fundo Leon Hirszman, grupo 4, série 8.

[3] A esse conjunto de filmes em torno da musicalidade, devem ser acrescentados dois outros. Rio, Carnaval da Vida (1978), atualmente inacessível para visionamento, é um documentário de registro da festividade popular, dedicado a observar a alegria como componente de liberação criativa dos padrões sociais. Bahia de Todos os Sambas (1983-96), terminado por Paulo Cezar Saraceni anos após a morte de Hirszman, acompanha a apresentação de alguns músicos, dentre eles Batatinha, Dorival Caymmi, Caetano Veloso e João Gilberto, durante um festival ocorrido em 1983, na cidade de Roma.

 

Edição 3

Editorial – por Fábio Feldman

Temáticos

#3. Nouvelle Vague Japonesa

Lançamentos

Livres

Especial:

Editorial Edição #03

Ao longo da década de 60, uma série de jovens cineastas japoneses resolveu se rebelar. Indo na contramão das imposições do sistema e rompendo com o legado de mestres como Ozu, Mizoguchi e Naruse, eles criaram algumas das obras mais desafiadoras da história do cinema nipônico – e, por que não, mundial. Contemplando temas extremamente controversos, renovaram diversos aspectos da linguagem cinematográfica, elaborando obras radicalmente originais e colocando seu país sob o influxo das novas ondas que varriam boa parte do cinema europeu de então.

Na presente edição da Rocinante, dedicamos a sessão Temática à incrível Nuberu Bagu, a Nouvelle Vague japonesa. Apresentamos críticas de filmes incontornáveis, dirigidos pelos geniais Nagisa Oshima, Hiroshi Teshigahara, Shohei Imamura, Susumu Hani, Kaneto Shindo e Yoshida Yoshishige. Dois ensaios, assinados por Adolfo Gomes e Douglas König de Oliveira, complementam a sessão, apresentando uma visão mais panorâmica do “movimento”, questionando o senso de coesão imputado a ele pela crítica e refletindo acerca de diálogos formais estabelecidos entre os japoneses e artistas de outras nacionalidades. Buscamos, assim, dividir novas leituras acerca de um conjunto fundamental de obras, a nosso ver, não tão discutido quanto deveria.

Para além de tais textos, disponibilizamos, também, na sessão Lançamentos, análises de um grupo um tanto heterogêneo de filmes, composto por, dentre outros, o blockbuster Rogue One, primeiro spin-off da franquia Star Wars, o polarizador Aquarius, o favorito ao Oscar La La Land e o vencedor da Palma de Ouro Eu, Daniel Blake.

Na sessão Livres, encontram-se uma entrevista exclusiva com o crítico italiano Adriano Aprá; um ensaio sobre as relações entre cinema e teatro, desenvolvido a partir de leituras de Marat/SadeA viagem do Capitão Tornado e Duplo Suicídio em Amijima; críticas de Vá e Veja (Elem Klimov) e Hitler IIIº Mundo (José Agrippino de Paula), filmes políticos de vigor indiscutível e que, nestes tempos sombrios, permanecem mais atuais do que nunca; e, por fim, uma cobertura da vigésima edição do forumdoc.bh, na qual, ao longo de 10 textos, João Campos e o colaborador Bruno Greco apresentam um panorama amplo, deixando claro por que, após duas décadas, o forumdoc continua sendo um dos festivais mais celebrados, amados e necessários do Brasil.

Fábio Feldman

O Peixe (2017), de Jonathas de Andrade

o peixe

A harmonia da devastação

João Campos

Durante a sessão de O peixe (2017), filme de Jonathas de Andrade que integrou a mostra competitiva de curtas-metragens do 50º Festival de Brasília, me recordei de um comentário de Werner Herzog no documentário Burden of Dreams (1982), de Les Blank. Em plena Amazônia, durante a gravação de Fitzcarraldo (1982), o diretor atesta que a natureza é muito mais forte que nós, e não menos sombria. O que ele enxerga na selva é “fornicação e asfixia, enforcamento e luta por sobrevivência e crescimento. Apenas apodrecimento (…). Olhando ao nosso redor, há certa harmonia. É a harmonia da devastação e assassinato coletivo”. Curiosamente, ele diz tudo isso cheio de admiração pela selva, revelando um amor relutante, semelhante aos efeitos de uma sedução perigosa.

Uma percepção similar atravessa o filme de Andrade, ainda que este se passe num contexto completamente diferente. O documentário é um experimento, inventado a partir do – ou para o – encontro entre realizador e pescadores de Piaçabuçu, Alagoas. Ali, um rito de passagem foi instituído: o pescador captura o peixe e, num gesto erótico e violento, o abraça até sua morte. O cineasta busca instaurar, portanto, um sonho que pode dizer bastante sobre si mesmo, mas pouco sobre os pescadores. O interessante, contudo, está na proposição de um rito imaginado que, como veremos, nos faz entrever o umbral da morte agonizante. Há uma reconexão heterodoxa entre pescador e peixe que se processa pela intervenção do onírico no filme, de modo que a obra só pode ser vista enquanto documentário se pensarmos numa etnografia de um encontro. A experiência é intensificada pelo modo como a mise-en-scène é elaborada, levando-nos a perscrutar, simultaneamente, o afeto e as sombras inescapáveis, numa repetição composta por uma montagem simples e eficaz – assinada por Tita e Ricardo Pretti.

***

A força do filme está na repetição do rito proposto (uma “tradição inventada”, como disse o realizador em entrevista), filmado a partir de um dispositivo que nos hipnotiza, nos seduz. (1) Num ponto do rio, a câmera mira as águas, adequando-se ao seu movimento pendular, até que (2) alcança um pescador, enquadrando-o à medida que se aproxima em zoom in. (3) Passamos para o momento da pesca. A montagem busca evidenciar, plástica e poeticamente, a pluralidade e beleza dos gestos, situações, movimentos, paisagens e sensações que envolvem a experiência do pescar. Corte. (4) O momento do abraço, que, a primeira vista, pode parecer inócuo, revela uma força subjacente: ele carrega a potência da ambiguidade, refletindo, a um só tempo, um gesto de amor e uma asfixia sombria. O ritual se converte numa experiência singular, um deslize ambíguo que se traduz em experiência aurática, ainda que aterradora. O filme fabula a partir do real, deslocando para o ecrã uma situação única, repleta de riqueza fenomenológica e imagética. Este é um documentário de reencontros: um reencontro sonhado – pelo realizador – entre caçador e caça, e outro reencontro, protagonizado pelo filme e o real, e conduzido pela ficção do rito. Nele encaramos o inelutável peso da “luta por sobrevivência” que Herzog menciona em seu monólogo sobre a selva, assim como a misteriosa silhueta da morte. (5) Em close up, o pescador olha para extracampo, evocação da lonjura ou distância que logo nos fere quando o olhar se vira para a câmera.

***

O Peixe representa uma experiência sonhada, cuja ambiguidade libera forças destrutivas – ainda que ficcionais. A repetição das situações da pesca e da ficção ritualística remete às operações estéticas de Elephant (1989). Contudo, o exercício aqui é outro. Alan Clark busca dar forma, através de um dispositivo semelhante ao elaborado por Jonathas de Andrade, a um fato social (uma onda violência). Sua fabulação em retrospectiva tira dos vestígios de assassinatos as pistas para a composição de um filme de planos-sequência. Em O peixe, Andrade dá a ver o encontro entre uma elaboração própria e a prática real dos pescadores. A fabulação se dá na proposição, no projeto de uma experiência que nunca se deu, elaborada para o cinema. Entre sonho e real, conceito e etnografia, assistimos a um conjunto de vestígios, fragmentos em movimento dialético, e regressamos para a terra dos mortos. O corpo do peixe que se debate sinaliza a morte, chama a nossa atenção para a indicialidade do morrer, a semelhança entre convulsões (peixe e homem) e a convergência de tudo no fim.

Pode-se interpretar que os procedimentos composicionais de O peixe controlam e violentam a existência e ofício dos pescadores filmados, mas proponho uma perspectiva possivelmente mais de acordo com a tessitura da obra, isto é, um olhar que permita, para além dos descaminhos do filme, distinguir as potências latentes que ricocheteiam na tela. Tal olhar me leva a caracterizar O peixe enquanto obra que faz uma ponte, cujas operações estéticas possibilitam um encontro liminar, construído na força da proposição, na elaboração de uma situação sonhada (pelo realizador, que fique claro) e, sobretudo, pela montagem rigorosa de fragmentos, ambos, ficcionais e etnográficos.

Pendular (2017), de Julia Murat

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Morada burguesa

João Campos

O longa de Julia Murat parece defender – em fogo brando – a ideia (leia-se: equívoco) de que fazer filmes não tem a ver com política. Falar de afeto é também falar de política (e se perder numa busca), como os filmes de Agnes Varda, Chantal Akerman e Marília Rocha evidenciam. Através de gestos formais que refletem as curvas do sentir e pensar, as obras dessas cineastas levantam questões, a um só tempo, estéticas e políticas. Nada parecido ocorre em Pendular (2017), obra que parece querer, tímida e ingenuamente, ensejar semelhante gesto, mas acaba por afundar no terreno do filme enquanto mercadoria.

***

Pendular é um drama em quatro atos, cuja forma se assemelha às novas novelas da Globo: enredo burguês, narrativa enclausurada numa estética planificada e classicista, controle de mise-en-scène comum a filmes industriais. Uma obra completamente insulada em sua proposta: contar a história de conflito e afeto entre dois personagens, evitando qualquer descontrole da forma e toda ousadia destrutiva – cara a Maurice Pialat, por exemplo, que realizou filmes de afeto esplendorosamente caóticos, apocalipses conjugais que encontravam uma forma disruptiva e demolidora.

Em termos de mise-en-scène, Julia Murat tenta deixar elementos importantes no extracampo, valorizando a construção de uma ambiência soturna e asfixiante. O mais interessante é o som, o que vem de fora e ressoa dentro, a montagem incessante de uma obra perdida, e os ensaios coreográficos de Alice. A fábrica abandonada em que vivem os dois amantes sugere que eles estão ocupando o lugar, o que nos lembra dos conflitos por moradia que assolam o mundo atual. Porém, a diretora utiliza a fábrica de outra maneira: como fetiche da forma. O cenário fantasmático do filme carece de qualquer complexidade de composição, seguindo os moldes de um cinema comercial que se pensa enquanto arte: quanta ingenuidade!

Desse modo, a fábrica abandonada se apresenta apenas como atelier hipster de dois personagens patéticos, cujos conflitos afetivos são completamente eufemizados poroperações estéticas inócuas. O roteiro também não diz nada que já não tenhamos vistoem filmes da Globo.

O mundo não chega à fábrica que, desabitada pelos trabalhadores, parece expulsar a destruição – isto é, a política. Impera, claramente, uma lógica de privatização – de possível ocupação, a fábrica se converte em estúdio. Os planos fixos no ambiente doméstico – pois a fábrica “ocupada” se converte em morada burguesa –, nos lembram os filmes de Ozu; mas como não há nenhum confronto ou relação (mesmo narrativa, ficcional) com o real, a conexão é relegada à cosmética. Outra ressonância desse cineasta são as paisagens internas que Julia Murat insere aqui e acolá, uma cópia contemporânea dos famosos planos de natureza morta do mestre japonês.

***

O último plano reflete uma violência complexa. Ao insular seu filme no ambiente convertido da fábrica, com suas curvas, ruídos, cabos de aço e destroços, Julia Murat compõe uma “obra de arte” contemporânea completamente desconectada de qualquer discussão atual. O exterior da fábrica, que surge no último plano como uma vitrine de sonhos de artistas burgueses, violenta todas e todos aqueles que, nas ruas, nas ocupações, nas fábricas e, atualmente, NO CINEMA, lutam, resistem e insistem em outros mundos possíveis. Fazer cinema é luta de classes, os tempos são de ódio.

 

Era Uma Vez Brasília (2017), de Adirley Queirós

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O apocalipse segundo Adirley Queirós

João Campos

O passado mais recente apresenta-se sempre como se tivesse sido destruído por uma série de catástrofes.

Theodor W. Adorno, em carta para Walter Benjamin (5 de junho de 1935)

Azul do cárcere. Amarelo do alerta. Vermelho do fogo do inferno. Em seu novo longa-metragem, Adirley Queirós surpreende o público com uma guinada sombria. Era Uma Vez Brasília (2017) é um filme de catástrofe. A catarse explosiva de Branco Sai, Preto Fica (2014) dá lugar a uma imobilidade soturna: os corpos filmados compartilham a paralisia tensa do pós-golpe. O argumento do filme é simples e absurdo: um viajante intergaláctico que vem do planeta Sol Nascente (mesmo nome da maior favela do DF) para assassinar o presidente Juscelino Kubitschek, mas se perde no tempo e espaço, aterrissando na Ceilândia pós-golpe, uma cidade-presídio que, sob o olhar do filme, evoca o universo devastado de Mad Max (1979) e Blade Runner (1982).

Wellington Abreu e Andréia Vieira são os nomes dos personagens, mas também os dos atores que os interpretam. A relação entre ficção e documentário apenas começa aí, refletindo uma presença complexa: o golpe produziu uma paralisia nervosa (inscrita, sobretudo, nos corpos dos personagens), um apocalipse silencioso e noturno (o único som é o ruído, a única luz, o fogo e as lâmpadas fosforescentes da ponte) que atravessa a mise-en-scène. As histórias de vida dos personagens são ligeiramente deformadas por um gesto de fabulação do real que inscreve o passado dessas pessoas num mundo distorcido por uma imaginação surrealista. Ambos os atores foram presos na vida real, e no filme se encontram numa cidade-presídio – “da nossa memória, fabulamos nóis mesmos”. A aventura que protagonizam é intergaláctica, mas o objetivo é político: assassinar o criador de Brasília, dar cabo ao sonho de modernidade que só produz cárcere e destruição.

Nessa obra, o embate é sutil, esfumaçado como a nave espacial de WA, coberta pelas nuvens de tabaco produzidas pelo caminhante noturno. A direção de arte e composição de figurino inventiva, assinada por Denise Vieira,merecem destaque, assim como a escolha de locações que, no filme, subvertem clichês da ficção científica clássica para criar algo híbrido. A nave espacial é de sucata pesada, os sons são metálicos, “de cadeia”[1]. O alienígena faz churrasco. O outro mundo é aqui.

O filme realiza uma etnografia surrealista de um inferno intersticial, em que elementos da experiência na Ceilândia se articulam numa chave de ficção científica (ao invés do estúdio, um desmanche de carros!). A força motriz da obra não é uma cinefilia pedante, mas a fenda aberta entre o cinema e a experiência de vida.

Adirley está filmando o apocalipse da periferia. As ruínas do capitalismo funcionam como espécie de negativo fotográfico do sonho de modernidade que persiste no Brasil. O universo distópico de Era Uma Vez Brasília produz um deslocamento: somos levados a olhar corpos de sucata pesada, cuja paralisia sinaliza mais que simboliza. A imobilidade de um Brasil colapsado produz estátuas-vivas, mas na iminência de um acontecimento: a rebelião? Ficamos olhando, seguindo personagens que vão de um lado para outro e, mesmo assim, não se movem, num jogo constante de sombras coloridas.

Os filmes de Adirley trabalham com uma dimensão alegórica, sempre na chave do absurdo em choque com o real – o Partido da Correria Nacional; a bomba cultural que “explode na cabeça e estraçalha ladrão”. Era Uma Vez Brasília utiliza metáforas sutis, sem deixar de fora da mise-en-scène relações plásticas e indiciais entre corpos, espaços, cores e gestos. Ao converter a Ceilândia em cidade-presídio, o filme reinventa elementos da vida na periferia através de um universo complexo de signos. A disparidade social é representada, alegoricamente, no espaço, posta em trânsito entre Plano Piloto e Ceilândia[2], e o encarceramento em massa da população se transforma em metáfora absurda de um mundo distópico.

A metáfora da cidade-presídio desloca nosso olhar, nos reconduzindo ao real pela força do absurdo. As relações entre as cores dos espaços, exploradas de maneira exemplar pela fotografia de Joana Pimenta, corroboram para a composição de um universo em declínio: o azul do cárcere solitário presente na nave de WA ou nos close ups no rosto de Marquim asfixiam o espectador, que é obrigado a buscar outras relações estéticas na mise-en-scène, poisa representação não basta.

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Era Uma Vez Brasília compõe um jogo etnográfico entre estátuas-vivas. O fracasso decorrente do golpe de 2016 produziu corpos elétricos, ainda que imóveis em sua tensão raivosa. As cenas em que Marquim do Tropa, Andreia Vieira e Wellington Abreu se encontram na ponte indicam essa imobilidade tensa. A opacidade do amarelo das lâmpadas fosforescentes incendeia sutilmente o quadro: a experiência desse filme é sensorial e plástica.

O discurso de Michel Temer presente no filme aponta para o futuro, um “novo horizonte” que se abre. “O inimigo fala dar-te-ei”[3], diz Marquim para o exército dos correria, formado por malucos de rua, boxeadoras, lutadores de muay-thai, caratecas, jiujiteiros e dois espadachins. A perspectiva que subjaz às falas de Temer é essencialmente anti-materialista – contra qualquer revolução ou rebelião –, pois eufemiza o real apontando uma utopia sempre distante – enquanto isso, a periferia queima. Essas são as promessas não cumpridas do progresso, cujo cinema de Adirley, desde A Cidade É Uma Só? (2011), tende a justapor.

Era Uma Vez Brasília é um filme anti-progresso: o que lampeja nesse universo sombrio e subterrâneo é a fricção entre um ocorrido não muito distante – o golpe de 2016 – e um presente materializado em corpos estáticos. A montagem produz uma silenciosa polifonia,capaz de explodir o contínuo da história[4] conservadora, que olha para o futuro de forma linear, rumo ao progresso – também sempre iminente, mas ilusório e covarde. É na montagem que o filme produz explosões: o gesto de mesclar o discurso oficial com as imagens do agora fabulado não é apenas uma justaposição absurda, é também uma operação estética destrutiva que coloca o presente em cheque.

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Era Uma Vez Brasília lida também com um paradoxo fundamental: como filmar o movimento no imóvel? Filme de fluxo na imobilidade, ele se vale de uma tessitura opaca cuja potência está na longa duração dos planos e nas interposições sonoras que, através de sutis movimentos de câmera e do uso do som ambiente entre ruídos e barulhos metálicos, inventa uma etnografia audiovisual surrealista de corpos em alerta, na busca fabulatória do lampejo vingativo – essa é a aventura do cinema de Adirley Queirós: consciência de classe, fabulação do passado no agora.

As caveiras-berrantes usadas pelo exército de Marquim apresentam uma relação importante no filme. A imagem da caveira reúne, em si, potencialidades icônicas, indiciais e simbólicas, se assemelhando ao rosto de gente, indicando vestígios mortais e simbolizando a face do horror. Em Era Uma Vez Brasília ela é acionada para duas finalidades: reunir um exército e evocar o passado – na busca de justiça aos mortos, aos fantasmas dos vencidos.

O golpe é a nova afirmação de um fracasso único – os vencedores falam “dar-te-ei”, mas pisam no túmulo de nossos iguais. Num certo momento, as caveiras-berrantes produzem sons de gritos – o que ressoa é o berro singular da luta de classes. A catástrofe produziu o horror e o apocalipse é agora. Estes vestígios do sofrimento e do ódio dos vencidos são as chamas simbólicas que envolvem a mise-en-scène de Era Uma Vez Brasília, uma obra que se aproxima do que Walter Benjamin[5] julgou ser o sentido político do cinema: fazer explodir o único sentimento capaz de produzir o despertar da classe trabalhadora, o ódio.

“Em qualquer época, os vivos descobrem-se no meio-dia da história. Espera-se deles que preparem um banquete para o passado. O historiador é o arauto que convida os defuntos à mesa”[6]. O cinema de Adirley Queirós é como esse banquete fantasmático dividido por defuntos e vivos; Era Uma Vez Brasília é a gloriosa expressão fenomenológica de uma obra que tem como mote a memória, a história e a vingança.

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[1] Essa caracterização da nave foi comentada pelo próprio diretor durante o debate de seu filme no Festival de Brasília.

[2]Lembremos do metrô que, a todo momento, atravessa o filme, levando os presos para a Ceilândia. Esses elementos visuais e sonoros constroem uma paisagem sonora assombrosa, sem mencionar a dimensão simbólica supracitada.

[3]Referência às mesóclises tortas de Temer.

[4]BENJAMIN, Walter. “Sobre o conceito da história”. In: Obras escolhidas I – Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994. Sobre “explodir o continuum da história”, ver as teses 14 e 15.

[5] Arquivo K [3a, 1] do livro Passagens, de Walter Benjamin. Este arquivo está disponível online no seguinte link: http://www.arquivoswbdeantropologia.net.br/

[6]BENJAMIN. Walter. Passagens. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006. Pp. 523

Por Trás da Linha de Escudos (2017), de Marcelo Pedroso

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O risco de escutar, o risco de mostrar

João Campos

Dar corpo e presença ao inimigo para que ele apareça em sua potência, tal como ele se apresenta hoje na cena política – uma ameaça a ser levada a sério. Aqui, o horror não é caricatural. Ele está no pensamento lógico, na racionalização, no cálculo, na negociação. O horror está na concretização da mais meditada aliança.

Jean-Louis Comolli. Como filmar o inimigo.

Poucos cineastas estão pensando o Brasil contemporâneo como Marcelo Pedroso. Seu novo longa-metragem apresenta uma etnografia sutil e arriscada de comandantes e praças do Batalhão do Choque da Polícia Militar de Pernambuco. O documentário é claramente orientado por um desejo militante de filmar o inimigo, e é nessa chave que podemos compreender um dos filmes que causaram mais alarde no 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Em Como filmar o inimigo?, Jean-Louis Comolli reflete, a partir de trabalhos próprios relacionados à Frente Nacional (FN) francesa, sobre as formas cinematográficas através das quais podemos filmar e compreender o inimigo (as modalidades do fascismo), a fim de combatê-lo com mais força. Durante o processo de filmagem de Tous pour un (1988), Comolli se deparou com uma jovem militante da FN, partidária da fascista Marine Le Pen. A surpresa o leva a indagar “como uma moça dos dias de hoje poderia ser partidária de Le Pen?”, e prossegue de maneira propositiva:

Eu estava estupefato, e esperava entender isso melhor filmando-a. Eu dizia a mim mesmo, ainda digo, que filmar é percorrer um tempo de experiência em que a relação do sujeito com seu corpo e sua palavra se desdobra e, ao mesmo tempo, se intensifica. Uma dinâmica de encarnação dos motivos do pensamento se torna possível, reconhecível. Se o Outro se encarna, para mim, isto acontece, antes de tudo, nos filmes. Acrescentar, filmando-o, corpo – gesto, palavra, movimento, sinuosidade – à ideologia do outro é, evidentemente, representar essa ideologia com mais força, ou seja, talvez provocar uma reação mais viva no espectador, dar-lhe mais material a apreender e mais desejo de combater. Portanto, a curiosidade se sobreporia à repulsa (p. 125).

Esse é o convite que Por Trás da Linha de Escudos (2017) nos faz: sobrepor a curiosidade à repulsa. Uma das cenas mais potentes do filme é a entrevista em que uma das policiais nos descreve, num aterrador gesto de rememoração, parte de seu passado no choque: a formação, o primeiro confronto etc. Ela lembra com saudade desses momentos violentos em que tomava gás lacrimogêneo na cara e batia em manifestantes. O diretor aponta para uma foto e diz: “eu tava aí”. Ela pergunta: “apanhou?”. O riso é nervoso, pois o sentimento é real. O que essa entrevista nos apresenta são vestígios de uma ambiguidade inquietante: o afeto é a força motriz do embrutecimento dos policiais do batalhão de choque. O interstício entre a afetividade e a violência mostra uma obscuridade difícil de lidar. Um deslize ambivalente atravessa o processo do filme, que a todo o momento dá a ver o horror que lampeja na conversa franca entre adversários.

“A partir do momento em que se encarna e se representa, um poder se torna sua própria caricatura. Nem é preciso forçar o traço, ele se força por si próprio. A sombra se desloca ao mesmo tempo que a luz” (p. 126-127). Em Por Trás da Linha de Escudos, não é preciso forçar nada, apenas escutar e compreender. A postura de Marcelo Pedroso em relação aos policiais é tática – e vice versa. Assistimos a uma atividade de observação participante: a interação é estruturada pelo jogo de mostrar/esconder taticamente. Contudo, os policiais se enforcam, suas performances deixam os rastros do horror. É preciso seguir esses vestígios, por exemplo:o documentarista filma uma ação do choque num presídio de menores. Estes são dispostos em fileira, obrigados a permanecer, violentamente, agachados durante a revista das celas. Tal gesto (cotidiano) de desumanização é representado através do som pesado dos cassetetes que ricocheteiam nas barras de metal e, principalmente, pelo close-up nos policiais que olham com repulsa os jovens detentos – o semblante deixa rastros. Como essa gente banaliza tanto suas ações violentas e repressoras? As pistas estão na formação, e é justamente esse o foco do filme.

O que torna Por Trás da Linha de Escudos uma obra singular é seu caráter dialógico, o desejo de aprender com o inimigo, de escutá-lo e compreender o que faz dele o que é. Nas imagens, acompanhamos a formação de novos membros do batalhão de choque da PM, processo em que os “motivos do pensamento” da instituição são incorporados nos praças. Ao filmar o inimigo, o que mais nos aterroriza é o “pedaço de humanidade bem humanamente viva” que este carrega, “até naquilo que teria de odioso ou detestável”(p. 129). Seus corpos não amados são humanos e, no filme, o que se busca são os mecanismos que definem essa gente: máquinas de repressão, braços direitos do fascismo latente da nossa sociedade – Comolli diria: são a “carcaça” de nossa sociedade.

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Para dar corpo ao inimigo é necessário filmá-lo e, sobretudo, escutá-lo, uma vez que esse corpo só se realiza enquanto produtor de sentidos que estão no “gesto, palavra, movimento, sinuosidade”. “Comolli é novo no Brasil”, comentou Marcelo Pedroso durante o debate de seu filme. De fato, na realização, Comolli é novo, e Pedroso é pioneiro nessa aventura arriscada. Dar presença e corpo à polícia brasileira não é tarefa fácil, uma vez que na primeira desavença o filme cessaria. É necessário negociar, conversar, ouvir – e nisso o filme de Pedroso prima.

Para se tornarem choque, os praças fazem teatro, ciranda e o escambau. Participar conjuntamente com eles em suas atividades é crucial para a compreensão de seus mecanismos formativos. A cena em que eles respiram o gás lacrimogêneo juntos e abraçados evoca filmes de rituais como Os Mestres Loucos (1995), de Jean Rouch[1]. Dando a ver esse processo, somos mais capazes de entender como a polícia funciona por dentro – compreensão que se dá a partir do contato com o corpo, dos processos que ele experiencia, do ideal de cidadania que se projeta nele. “Iniciar, ver, dar a ver, ver-se. É o que poderíamos transcrever como: a alegria/a criação. Quando não há essa fruição, não há filme” (p. 56). A câmera de Por Trás da Linha de Escudos estabelece um elo social, tático e, obviamente, efêmero entre aqueles que são filmados e os que filmam, dando a ver relações que o cinema brasileiro nunca sequer sonhou em mostrar.

Um dos maiores riscos tomados por Marcelo Pedroso em seu filme é o de parecer conivente ou complacente.O dispositivo de espelhamento que elabora produz metáforas que tomam a relação de reflexo entre cineasta e polícia como algo a se evitar. O filme se debate com essa questão – que é social, mas também plástica –, a fim de mostrar que, ao tentar compreender o inimigo, corre-se o risco de se contaminar pela humanidade do outro. O reflexo do diretor no escudo do choque e sua imagem fardada parecem apontar para tal perigo: um tênue jogo de ilusões se institui.

Outra inscrição desse mesmo dispositivo está na cena final, em que justapõe, na montagem, policiais e manifestantes. Os recém-formados policiais do choque se apresentam na praça do batalhão. Em formação, eles ostentam sua organização militar – os demônios foram paridos e estão prontos para o combate. Não obstante, uma montagem paralela inscreve manifestantes que, depois de recortarem o azul celeste da bandeira do Brasil e atearem fogo no símbolo nacional, se posicionam e marcham em direção à câmera, empunhando escudos de “ordem e progresso”. Esse jogo de reflexos simboliza o aprendizado com o inimigo. Nós o escutamos, compreendemos suas contradições, performances e fraquezas (um policial não pode atacar a bandeira nacional durante serviço) e agora vamos combatê-lo. Da ordem e progresso, o documentário extrai a súmula capaz de fortalecer a resistência. No resto, nós tacamos fogo.

Durante o debate promovido no Festival de Brasília, o incômodo do público em relação à obra deixou claro que poucos aceitaram seu desafio. A dimensão alegórica da obra tenta atender às demandas mais moderadas da audiência[2]. A voz over do documentarista apresenta evidências de um desejo de aprendizado e resistência. Desse modo, as descrições que Marcelo Pedroso faz das formas da bandeira do Brasil e dos obstáculos legais que envolvem a polícia e depredação do símbolo nacional funcionam como um único gesto proléptico. Este projeta, ainda que timidamente,o aprendizado do agora – escutar a PM – num futuro de luta – usaremos o azul celeste da bandeira para nos defender de vocês, que estudamos e agora combatemos. Filmar para conhecer, filmar para combater. O que tem de arriscado nisso? Considerando o apedrejamento que esse filme sofreu em Cachoeira e Brasília, e depois de muita reflexão, defendo: o maior risco está em mostrar. Mas não se enganem, pois esse filme abriu uma ferida difícil de estancar – um curto-circuito necessário. Por trás da linha de escudos poderá muito bem ser o centro originário de um capítulo da história do cinema brasileiro futuro.

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[1]Não quero dizer, obviamente, que Jean Rouch filmava inimigos.

[2] No debate, fiquei pensando: e se Por Trás da Linha de Escudos abdicasse da alegoria e fosse para um corpo a corpo direto com a realidade documentada? Que obra-prima! Mas ficaria para a posteridade, considerando o público de hoje, sedento por posicionamentos que lhe afagam: reproduzir o consenso! É isso mesmo o que nós queremos?

Tentei, de Laís Melo

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O peso da duração

João Campos

Muito do cinema contemporâneo diz respeito à composição atmosférica e vibração dos corpos de atores e não-atores que transitam num mundo em colapso – e ruínas. Na obra de estréia de Laís Melo, os dois elementos supracitados estruturam uma mise-en-scène de delicadeza destrutiva. O filme acompanha o dia de Glória, personagem que, já nas primeiras sequências, impõe o peso de sua resistência. A equipe do filme é formada majoritariamente por mulheres, e esse encontro incisivo resultou num dos maiores destaques da mostra competitiva de curtas-metragens dessa edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Na cama, ao lado do companheiro violador, Glória aguarda o dia amanhecer a fim de seguir rumo à delegacia de mulheres, onde realiza a tentativa (frustrada pelo sistema burocrático) de denúncia contra as violências de seu marido. Este repousa na cena do crime: o lar. O percurso da protagonista consiste em acordar, tomar café da manhã, seguir de ônibus para a delegacia, tentar, fracassar e explodir – a explosão é performática. Em tal curta e intensa travessia, acompanhamos, estarrecidos, um corpo sobrevivente que emana ódio, filmado de uma perspectiva seca, com sangue nos olhos.

A prevalência de planos-sequência fechados, em constante movimento devido à câmera na mão, esconde mais do que mostra, mas dá a ver, de maneira convulsiva e reveladora, um processo invisível – para muitas e, obviamente, todos –, que precisa ser mostrado. A atuação de Patrícia Saravy (que interpreta Glória) é de uma potência devastadora: seus gestos e movimentos instauram, em relação à câmera de Renata Correa, uma coreografia apocalíptica e silenciosa – a voz não sai, mas o gesto emite os sinais da desgraça e da rebelião iminente.

A forma de filmar o conflito se assemelha a Rosetta (1999), obra-prima dos Irmãos Dardenne, que explora os movimentos enérgicos de uma jovem que sobrevive nas ruínas do capitalismo, pulando de emprego a emprego, entre violências. Em Tentei (2017), a mesma convulsão imagética toma conta do quadro, provocando no espectador a uma experiência sensorial tensa. O roteiro é minimalista, de uma aridez capaz de criar pontos de contato entre um contexto social de silêncio e abuso e a rebelião gestual que lampeja no último plano, em que Glória se debate convulsivamente, numa performance que nos olha e fere. Um filme sensorial que faz política no gesto, na decupagem, no texto e na montagem.